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Lendas e Histórias Aqui poderá encontrar lendas e histórias que atravessaram os séculos e que prendem ainda o imaginário popular.
A sua colaboração é indispensável:
conte-nos "aquela história" que toda a gente da sua terra conhece.
   
     

 

 
  Santarém

O Cristo da Pastorinha

Rosalina Melro

Narrativas envolventes e muito interessantes, como as estórias de amor e morte da jovem e bela Xerezade que da imaginapão e da arte de narrar soube fazer arma de defesa, encantando o rei que a queria matar com o desfiar fantasioso, lúdico e lírico das Mil e uma Noites, obra recentemente reeditada na versão portuguesa concebida para "Temas e Debates" cuja leitura me dá prazer e me sugeriu a ideia de fazer desfilar, pouco a pouco, na spáginas da Alma Nova, as mil uma lendas da nossa cultura tradicional.

As lendas surgem no panorama cultural da humanidade na sua imensa e profunda riqueza de tradições narrativas geradas por um fundo comum de elementos subjectivos de carácter mítico e mistico. A sua função pedagógico moralizadora acontecia naturalmente como uma qualquer função vital do ser humano. Contar sob a forma de rimance, de conto popular, de epopeia cavalheiresca, de mito religioso (do paganismo ou do cristianismo) e, até, através de dramatizações de costumes, foi desde que é possível fazer memória da vida do homem, uma prática da comunicação narrativa nas comunidades humanas.

As lendas estão entre essas formas da tradiçáo narrativa. Muitas mergulham as suas raízes no politeísmo gentílico ou nas heresias da Alta Idade Média. Narrativas lógicas e sentimentais que se difundiram e se ramificaram, porque colhiam o agrado do povo, um lenitivo para as paixões da alma, um estímulo para a criatividade popular, uma via de aproximaçáo, por semelhança, do Homem aos seus Deuses.

E, porque na sua origem, as lendas se tornaram uma forma espontânea, natural e necessária ao Homem na sua existência comunitária, a escrita iria fixá-las para que pudessem ser lidas e se repetissem de geração em geração. As lendas eram tradições narrativas orais que, desde muito cedo, começaram a ser passadas a escrito para serem lidas em cerimónias colectivas, porque a sua forma narrativa era bem recebida pelo povo. Podem ser dados como exemplos as narrativas lendárias dos Evangelhos Apócrifos.

O próprio nome legenda ou lendatem na sua interpretação semântica a marca dessa forma escrita. A legenda - o que era escrito para ser lido - guardava vestígios míticos, históricos, místicos, anedóticos ou novelescos. Os mesmos motivos reúnem-se em isotopias temáticas: o universo, a natureza, a religião, as lutas heróicas, as questões pragmáticas, as forças espirituais, os sentimentos, os medos, as crenças, os mitos antagónicos da vida e da morte, do amor e do ódio, tudo, enfim, tem sido fixado pelas lendas tradicionais que se assemelham, mas nunca se repetem ipsis verbis de uma nação para outra, de uma região para outra.

Para começar esta série de artigos que, sem pretenderem provar nada, procuram linhas de reflexão sobre relações existentes entre formas de literatura, ditas populares, e outras formas literárias assumidamente eruditas, escolhemos uma lenda que pode ter tido a sua origem num objecto de Arte. Se assim for, podemos dizer que é uma lenda palaciana que, posteriormente, passou ao domínio popular. Trata-se da conhecida "Lenda da Pastorinha" ou "Lenda do Cristo de Montiraz" que reza assim:

"No reinado de D. Afonso III, o Bolonhês, havia em Montiraz uma bela pastorinha que costumava guardar o seu rebanho nos olivais que rodeavam o convento dos frades pregadores. A formosinha tinha muita devoção pelo Cristo crucificado que a olhava piedoso lá do alto da capela-mor onde o trade capelão falava de amor e de justiça. Um garboso e jovem fidalgo da corte do Bolonhês tinha por costume passear a cavalo nas cercanias do convento. Viu a jovem pastora e pasmou de tanta formosura e tão donairoso porte. O fogo do desojo e da paixão incendiou-lhe o coração. Todos os dias passava e sempre saudava a pastorinha que, tímida, Ihe acenava e, logo, baixava os olhos. Com boas maneiras e mansas palavras, aproximou-se da rapariga e falou, como só ele sabia, da beleza da paisagem e da solidão daquele lugar. Quando chovia, recolhiam-se os dois na capelinha. Diante do Cristo crucificado, o fidalgo jurou amor à pobre pastora. Passaram os meses, o ventre da jovem revelava ao povo o segredo daquele amor. Então, ela pediu ao fidalgo que cumprisse a sua palavra. Ele recusou a sua culpa e deixou de aparecer em Montiraz.

Num Domingo, havia missa e pregação na capela dos frades e toda a Corte veio assistir. Após a Comunhão, a pastora, diante de todos pediu ao Senhor Cristo quedesse um sinal, que mostrasse quem era o pai do filho que ela trazia no ventre. E, perante o assombro de toda a gente, o braço direito do Cristo soltou-se da cruz e apontou o sedutor que logo pediu perdão e, ali mesmo, foram casados com a benção do padre capelão."

-O Cristo de Montiraz, segundo alguns eruditos, foi o motivo desta lenda palaciana, originária de Todelo, onde existe uma narrativa semelhante em torno do "Cristo de La Veja'', aliás, imagem e lenda que se multiplicam em vários pueblos" da vizinha Espanha. Lenda de temática mística que reforça a crença na intervenção divina a favor dos fracos e dos oprimidos. A imagem que agora se encontra na igreja paroquial de Santa Iria, na Ribeira, é de grande valor artístico. Apresenta o braço direito pendido da cruz e a modelação do dorso, onde é nitida a divisão da linha que contorna as costelas, acentua a antiguidade do trabalho escultórico. Outros elementos, como o alongado das mãos, a falta da coroa de espinhos e os panos alongados do saio, levam os especialistas e colocar a feitura da peça no século XIII, antes dos Cristos de Almoster e do Museu Machado de Castro.

Segundo outras versões, o milagre aconteceu no tempo de D. Afonso IlI, em 1265, ano da morte de S. Frei Gil de Santarém. Época fértil em acontecirnentos maravilhosos. Não faltam autores que colocam o Milagre Eucarístico de Santo Estevão nessa mesma época, no ano de 1266. Nesta corrente de opinião, terá sido o facto milagroso da Pastorinha que deu origem à encomenda da imagem artística do Cristo de Montiraz.

No século XVII, os historiadores de Santarém dão grande desenvolvimento à narrativa milagrosa, registada tanto pelo Padre Inácio da Piedade e Vasconcelos como pelo Padre Luis Montez Mattoso.

Também nas academias e tertúlias do século XVIII, o tema foi glosado, a julgar pelo grosso volume de produções poéticas, umas mais conseguidas do que outras, inspiradas na história da Pastorinha de Montiraz. Dessas poesias, q ue se encontram nos manuscritos de arquivos bibliotecários, transcrevemos um soneto da autoria de Gaspar da Fonseca, Abade de Tomar:

Fiada em hum cárinho lisongeiro
Bella pastora, quanto bella isenta,
Hum quanto falso amor intenta
Por força acreditar de verdadeyro.

Com simples fé, mas coração inteiro,
Como quem não conhece por attenta
Mais vulgo que o rebenho que apascenta,
Testemunha fazer quer de um cordeyro.

De hum cordeyro que aos olhos se Ihe expunha
Sobre uma cruz, ó quanto assombro abraço!
Se he cauza em que o Juiz foi testemunha.

Do fiel cravo deixando o doce laço
Que bem para a justiça se dispunha,
Pois, na vera Cruz, se move o braço!

A Lenda da Pastorinha apresenta-nos, portanto, o processo híbrido de erudito-popular ou de popular-erudito que encontramos na maior parte das nossas narrativas lendárias.

In "Suplemento Cultural de O Mirante" de 23/4/97

Santa Iria, a mais amada

Rosalina Melro

A Cristianização dos povos bárbaros da Península Hispânica começou logo nos primeiros séculos da nossa era. A alta ldade Média é um período riquíssimo de testemunhos paleocristãos. Muitas das narrativas lendárias cristãs referem figuras e factos desse período de grande pureza mística e exaltado fervor religioso.

O pitoresco e popular bairro da Ribeira atrai a atenção dos locais e dos forasteiros para o sentido religioso e tradicional das suas festividades. Agosto abre o ciclo da sua força anímica com o Círio e o Arraial da Senhora da Saúde. Trajados a rigor, em breque puxado por uma luzida parelha, os festeiros partem da Igreja paroquial de Santa Iria em romagem à Capela da Quinta da Saúde. Lugar que outrora foi Convento Franciscano e hoje é uma bem cuidada residência particular.

Preservar o património cultural é também manter vivas as festas tradicionais de cada comunidade, de cada aldeia rural, de cada bairro urbano. A Ribeira, o histórico e pitoresco arrabalde de Santarém, terra e gente de características muito peculiares, é uma freguesia que em si própria se orgulha de aliar o rural e o urbano ao seu Tejo.

A Ribeira esforcou-se sempre, através dos tempos, por celebrar a sua padroeira, a lendária Santa Iria. E também conserva bem vivo o arraial dos arrieiros em louvor de Nª Sª da Saúde. Aproxima-se mais uma grande Festa de Santa Iria em Honra de Nª Sª da Saúde. Em homenagem aos homens e mulheres que mantêm astradições da Ribeira, vamos evocar, nesta série de lendas ribatejanas, a conhecida Lenda de Santa lria.

No ano de 637, o mês de Agosto fora excepcional quente. Num fim de tarde, os rubores do sol pareciam tingir de sangue a água do rio Tejo. A serene e formosa enseada do Pego aparecia como um luminoso lago sanguíneo.

Vindo das bandas de Nabância, (actual Tomar), um romeiro ajoelhou-se à beira do rio, em frente ao lugar onde, sete anos atrás, fora achado um maravilhoso túmulo de alabastro róseo, boiando qual baú de cortiça. Nesse túmulo, parecendo adormecida, a doce Iria aguardava a chegada de seu tio, o santo abade Célio. O bondoso Célio aproximava - se acompanhado de uma multidão de cristãos. Em sonhos, ele tivera a revelação de todo o martírio de Iria, a mais amada das virgens.

Nesse sonho, ele vira Iria a donzela, bordando nos claustros do mosteiro das Donas de Nabância. Ajoelhado junto de Iria, estava o jovem Britaldo que, muito apaixonado, implorava a Iria que o aceitasse por esposo. Apressou-se a bela Iria a explicar que era impossível, pois fizera voto de castidade. Entregara a Cristo a sua vida. Triste, triste de morrer, Britaldo regressou ao seu castelo. Logo, adoeceu gravemente.

Na vida monástica, Iria rezava e trabalhava. Por inspiração de Deus pede à sua abadessa e vai falar ao moribundo Britaldo. Com doçura e firmeza convence-o de sua razão e diz-lhe que tenha fé. Britaldo confia em Iria e retoma as suas actividades como castelão nabantino. Ao ver esta cena, em sonhos, o abade Célio louvou a Deus. Porém, a revelação seguinte foi muito cruel para o seu coração de homem santo. Ele assistiu ao assédio despudorado que o monge Remígio, professor de lria, faz à donzela. Ela recusa-o energicamente. O malvado Remígio, com suas malas-artes d ealquimia, prepara um pó que mistura na comida da sua aluna. Entáo, o ventre da jovem cresceu como se estivesse grávida. Muitos a acusam. Ela proclama a sua inocência. Mas a calúnia chega aos ouvidos de Britaldo. Louco de raiva, a sua paixão transfommada em ódio, Britaldo ordena ao seu criado Banão que vá matar Iria. Banão crescera junto de Iria, amava-a como a uma irmã.

Iria a mais amada, Iria tão desgraçada! Sem coragem para desobedecer a seu amo, Banão duvida da honradez de Iria. Ao alvorecer, surpreendeu-a, quando, pela margem do Nabão, ela rezava e caminhava em direcção à capela da Imaculada Conceição aonde ia meditar. E tantas eram as suas preocupacões que nem sentiu os passos do malvado que de um só golpe a trespassou. Depois, tomado de remorso e de espanto quis fazer desaparecer o corpo casto de Iria, fazendo-o mergulhar nas águas do Nabão.

Tudo isto, o abade Célio contemplou no seu sonho. E mais Ihe foi dado ver. Os anjos depositaram Iria num túmulo róseo e milagroso. Era de pedra mas vogava sobre as águas dos rios como se fosse o berço do lendário Ábidis. Os anjos acompanharam-na na descida dos rios até que para num pego doTejo, em frente do lugar de Seserigo, onde se levantava um grande penedo.

Após esta revelação, o abade fez divulgar o milagre e veio de Nabância a primeira romagem a Santa Iria. Era vontade de Célio levar Iria para o seu mosteiro. Queria glorificá-la e pedir perdão pelos martírios que a virgem sofrera. Talvez, por castigo divino, ninguém conseguiu tirar a bela Iria do seu sepulcro. Apenas o abade recolheu uma madeixa de loiros cabelos e alguns pedaços do seu vestido. Reliquias que foram guardadas através dos séculos na Igreja que, em Tomar, tem por patrono Santa Iria.

Mas quem era o romeiro que se ajoelhava, sete anos após a morte de Iria, no seu lugar sagrado?

Acredita a gente simples que era o seu matador. Falam dele os "rimances" do Cancioneiro Popular Português. Almeida Garrett recolheu algumas variantes. Narrativas poéticas do povo que ama e canta os seus amores. " Chamavam-me lria, lria afidalga./ /Por aqui agora, Iria a coitada./ /Andando, andando, toda a noite andava,/ /Lá por madrugada que me atentava.../ / Tirou do alfange, ali me matava;/ /Abriu uma cova onde me enterrava./ / No fim de sete anos passa o cavaleiro,/ /Uma linda ermida viu naquele outeiro.// Que ermida é aquela de tanto romeiro?// É de Santa Iria, que sofreu marteiro.// -Minha Santa lria, meu amor primeiro,// Se me perdoares, serei teu romeiro.// - Perdoar não te hei-de, ladrão carniceiro,// Que me degolaste que nem um cordeiro."

A desaparecida Capela de Santa Iria, terá sido edificada sobre um penedo, no lugar onde o assassino de Iria terá aparecido a rogar o seu perdão. Em 1886, Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno, ainda refere a existência de Santa Iria, a pequena (o povo designava deste modo a capelinha primitiva, para a distinguir da Igreja Matriz, ainda hoje chamada pelos mais velhos, Santa Iria, a grande).

Situava-a junto à Capela de Nossa Senhora das Neves, edifício do Século XVII, que ainda mantém a sua traça, embora seja actualmente dependência de uma casa particular.

Parece-nos interessante esta versão da Lenda de Santa Iria, pois parte da narrativa é localizada num ponto concreto da Ribeira. Lugar de evocações milenares. Nele ressoa o nome de Santa Iria ou Santa Irene. Nome tantas vezes proferido. Nome tão enraizado no coração e na fé do povo que com ele passo a denominar a própria cidade que de Scallabis passou a Chantirene, e em breve, a Santarém.

in Jornal O Mirante - 16/7/97

A Lenda de Abidis

Rosalina Melro

Outrora existia junto do rio Tejo um reino verdejante e florido. Nas suas florestas havia muitos animais. Os habitantes eram lavradores e caçadores que amavam a Natureza.

O rei Gorgoris recebeu dos deuses o segredo de fazer o mel. Foi Gorgoris quem ensinou esse segredo às abelhas. Por isso era conhecido no seu reino e até em países longínquos pela alcunha de Melícola.

Gorgoris tinha uma filha única, a bela princesa Capipso que adorava passear nas areias doiradas das praias do Tejo.

Certo dia, chegou ao cais de Melícola o navio do grego Ulisses que vinha abastecer-se de comida e água e, também, comprar o famoso mel daquela região.

O herói grego desembarcou para falar com o rei, mas encontrou Calipso e logo se apaixonaram e, esquecidos de tudo, ficaram dias e dias gozando as delícias daquele país de sol e floridos campos e frondosas florestas. Os caçadores viram os namorados e foram contar ao rei Gorgoris.

Furioso, o rei ameaçou de morte o estrangeiro Ulisses porque não queria que a filha gostasse dele. Ulisses fugiu, às escondidas, numa noite escura. E a pobre princesa ficou abandonada e à espera de, em breve, ter um bébé... A criança nasceu linda como um anjo. Num braço tinha marcada a vermelho uma flor que a princesa beijou, com muita ternura.-Ábidis, assim te chamarás!.

Melícola mandou pôr o bébé num cesto e lançar o cesto ao rio. O cesto ficou encalhado numa praia do Tejo. Vieram as corças beber ao rio. Uma aproximou-se do cesto. Puxou-o e deu de mamar a Ábidis. O Príncipe foi criado pelos animais do bosque.

Vinte anos depois, o rei Gorgoris estava à morte. Cheio de desgostos, porque não tinha nenhum filho, nem nenhum neto para herdar o reino. Os caçadores falaram-lhe de um jovem, belo e forte, que andava com os animais pelas florestas dos montes e dos vales. O rei ordenou que o trouxessem à sua presença. Armaram-lhe uma ratoeira e apanharam Ábidis. Logo que o viu, a pobre Calipso, que estava muito doente, reconheceu-o pelo sinal no braço. Gorgoris pediu perdão à filha e ao neto e fê-lo seu herdeiro.

Ábidis governou muitos e muitos anos com justiça e sabedoria. Nos montes, onde foi criado pela corça, mandou construir uma cidade e chamou-lhe Esca Ábidis, que significa as delícias de Ábidis.

1147-A entrevista do Arnado

José Henriques Barata. Lendas da conquista de Santarém.

(adaptação)

Conta-se que D. Afonso Henriques, antes da conquista de Santarém, foi um dia passear para o campo do Arnado, que ficava na margem direita do rio Mondego. Com ele estavam alguns fidalgos-guerreiros, entre os quais Lourenço Viegas, Gonçalo de Sousa e Pero Pais, seu alferes.

Contou-lhes então o seu projecto de conquistar por assalto a cidade de Santarém. No final da conversa recomendou-lhes que "esta coisa tivessem em grande segredo, sob pena de morte."

De regresso ao paço em Coimbra, o rei ouviu uma velha regateira dizer para as outras:

"-Quereis vós saber o que agora El-Rei com os seus privados falou? Falou com eles como haveriam de tomar Santarém".

Assim que chegou ao paço, D. Afonso Henriques virou-se para aqueles que o acompanhavam e a quem tinha confiado o segredo e disse-lhes:

"-Grande risco correriam as vossas vidas, se vos tivésseis afastado de mim antes de ouvir aquela mulher, porque sem dúvida pagaríeis com a cabeça o seu dito".

1147-A fuga do Alcaide

José Henriques Barata. Lendas da conquista de Santarém.

(adaptação)

O alcaide de Santarém conseguiu fugir, depois de D. Afonso Henriques ter entrado na vila. Diz-se que fugiu pelo Postigo de Santo Estêvão que, por isso, se passou a chamar também Postigo da Carreira.

Partiu velozmente em direcção a Sevilha. O emir que se encontrava na Torre de Ouro, avistou-o ao longe e disse aos que o acompanhavam:

"Vêdes aquele que vem com grande pressa? É o acaide Cefrim, de Santarém. Se naquele rio der água ao cavalo, é porque a vila de Santarém foi tomada. Se não der, é porque a vila está cercada e vem pedir-nos socorro".

O alcaide, ao chegar ao rio, deu de beber ao cavalo. O emir disse então:

"Santarém foi tomada".

1147-O episódio de Pedro Escuro

José Henriques Barata. Lendas da conquista de Santarém.

(adaptação)

Pedro Escuro, companheiro de D. Afonso Henriques na tomada de Santarém, vigiava a porta de Valada, para impedir que por ali se escapassem mouros. Um deles, mais atrevido, conseguiu sair, dizendo arrogantemente a Pedro Escuro que havia de voltar àquela porta, para experimentar forças com ele. Pedro Escuro respondeu:

"Iredes e viredes e aqui me acharedes ou morto ou vivo".

Não voltou o mouro, mas Pedro Escuro, escravo da sua palavra, ordenou no seu testamento que fosse enterrado junto à porta de Valada.

Como recordação deste episódio, Pedro Escuro mandou erguer no local uma ermida e um hospital.

No reinado de D. Manuel, os ossos de Pedro Escuro foram tresladados para a Igreja do Hospital de Jesus Cristo, onde, do lado da Epístola do altar-mor, se lê ainda o seguinte letreiro:

"Sepultura de Pedro Escuro, do Conselho del-Rey D. Afonso Henriques, a quem o dito Senhor para tomar esta Vila aos Mouros, encarregou a porta de Valada, pela qual entrou, e por memória se mandou enterrar junto dela: e depois por haver instituído o Hospital de Reclamador, e Palmeiro, mandou El-Rey D. Manuel tresladar seus ossos a esta Igreja donde tem missa quotidiana."

1147-Voto do Rei em Alvardos

José Henriques Barata. Lendas da conquista de Santarém.

Corria o ano de 1147. D. Afonso Henriques e o seu pequeno exército dirigiam-se a Santarém com o objectivo de tomarem a Vila. Ao atravessarem a serra de Alvardos (maciço de Porto de Mós), D. Pedro Afonso (1), disse a D. Afonso Henriques:

"Senhor, ouvi falar de um homem bom e muito santo que se chama Bernardo. Pertence à ordem religiosa de S. Bento. Diz-se que Deus fez por ele muitos milagres e que não há coisa que ele peça a Deus que não seja cumprida. Se vós lhe derdes aqui terra e lugar para se construir um mosteiro em honra de Santa Maria, crede que por mercê de Deus conquistareis Santarém".

D. Afonso Henriques prometeu e cumpriu: mandou edificar o mosteiro de Alcobaça.

Conta-se ainda que, quando o rei fez a promessa, esta foi revelada ao Santo que estava em França. As orações que S. Bernardo então dirigiu a Deus, permitiram a vitória dos portugueses.

(1) Não se sabe se D. Pedro Afonso era irmão de D. Afonso Henriques ou se era seu filho bastardo.

1171-A Espada com asa

Lenda contada por Manuel Bernardes em "Nova Floresta".

Em 1171, Santarém foi cercada pelos muçulmanos. D. Afonso Henriques encontrava-se na vila. Apesar de já não poder montar a cavalo, quis ir combater. Para isso, mandou preparar um carro para o levar ao campo inimigo. Os seus companheiros tentaram dissadí-lo, preocupados com a segurança do rei de Portugal. Mas este respondeu-lhes:

-"Se pela ventura alguns tiverem receio, o que não cuido, fiquem na Vila, e não vão lá, que eu não poderei sofrer tanta vergonha".

E lá partiu para o campo de batalha. Como de costume lutou bravamente, causando muitos mortos no exército inimigo. Venceram os portugueses.

Depois da batalha, o rei contou que que vira, ao lado do seu braço direito, um outro braço armado e que terminava junto ao ombro com uma asa de cor púrpura. Este braço tinha-o ajudado na luta e tinha-o defendido dos golpes do inimigo. O rei concluiu que este braço pertencia ao seu anjo custódio ou ao arcanjo S. Miguel, visto que ele lhes tinha pedido auxílio antes de entrar na batalha. Muitos dos mouros que tinham também participado na batalha e que ficaram cativos, afirmaram terem visto o mesmo.

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  Torres Novas

A Lenda do Senhor Jesus dos Lavradores

Versão do Museu Agricola de Riachos

Numa manhã de Maio dos alvores da idade média,não se sabe bem já quando, um grupo de Cingeleiros destas terras de Riachos, andava, como tantos outros, na lavoura dos seus hastins dos campos do Espargal.

Auxiliavam-nos nas suas duras tarefas juntas de bois de trabalho que, pacientemente, puxavam os arados (feitos de madeira de azinho protegida, nas pontas, por bicos de ferro).

A certa altura e porque os bois não conseguiam avançar, fincando mesmo, com o esforço, os joelhos no chão, os lavradores repararam que o bico do arado estava preso numa grande pedra que começava a sobressair do ventre da terra.

Escavando, então, descobriram debaixo da laje uma imagem, escura e triste, de um Senhor Jesus Crucificado, que, com a surpresa, os fez cair de joelhos como se de um milagre estivesse acontecendo. Limparam-lhe, depois, a terra húmida dos cabelos (quase humanos), de entre os dentes da boca enteaberta, dos pés e das mãos. Ajeitaram-lhe os pregos da cruz e, depois, levaram-na bem para o centro da povoação, para o Largo, aonde, sabido do milagroso achado,depressa acorreram, vindos dos seus casais, os outros lavradores-cingeleiros de Riachos.

Carregada a imagem num carro puxado por uma junta de bois (precisamente aquela que a encontrou), enfeitaram-no de flores campestres e de ervas aromáticas e lá foram a cantar entregá-la (ainda que contrariadamente... ) à Igreja da sede da freguesia,em Santiago, perto do Paço, em Torres Novas.

A partir daí, todos os anos, em plena Primavera, os cingeleiros de Riachos fizeram nascer a sua "Festa", a Festa da Benção do Gado, desfilando alegremente com os seus animais, enfeitados e floridos, numa recordação da memória do seu achado.

E sempre, até aos dias de hoje, os riachenses relembram nesses dias o que há de mais profundo na sua memória: o encanto de uma lenda que acima de tudo representa a mais profunda ligação à Natureza, única fonte de riqueza da sua vida e do seu saber ancestral.

Santo António e a Torrejana

Rosalina Melro

Muitas das mais belas narrativas lendárias de temas místicos têm como personagem principal uma virgem ou um santo popular.

José Joaquim Nunes (1859-1932), filólogo e académico de renome, publicou uma colectânea intitulada "Coisas Notáveis e Milagres de Santo António" onde se encontram narrativas dos mais ingénuos milagres do famoso taumaturgo lisboeta entremeadas de narrações fantásticas e de poéticas lendas. Relembramos uma dessas lendas que corre na região de Torres Novas com ligeiras variantes. Conto-a tal como a ouvi, há muitos anos, numa tarde de soalheiro, em que as historietas e as malhas das lérias se entreteciam na voz mansa, temperada de saberes ancestrais, da minha Ti Zabel.

"Nunca te falaram da torrejana morta-viva? Foi no bairro d'Elbrom, perto de Torres Novas. Nos primeiros séculos do reino de Portugal. Governava el-rei D.Dinis. E a Rainha Santa, que tanto Ihe aturou, dava pão e consolo aos pobres e aos doentes. Numa casa térrea, vivia em Elbrom uma devota mulher. Festeira de Santo António, patrono do seu bairro, sempre cumpria o que então era preceito de fé: ia a pé ao moinho mais alto da Vila de Torres Novas, cerca do cemitério. Lá mandava moer farinha e, pela tardinha, regressava a casa. Cozia pão alvo que dava aos pobres depois da missa, na manhã de Santo António. Certo dia, acontecou-lhe, depois de isto cumprir anos e anos a fio, ir moer o seu trigo ao moinho. Já perto do cimo do cabeço, alevantou-se um vento tão bruto que Ihe deu na cara e depois a derrubou a ela e ao saco que levava à cabeça. A mulher caiu de papo pró ar e, quando recobrou ânimo, tinha diante dela um mancebo formoso como um anjo divinal. A mulher pôs-se de pé num repente. O moço estendeu-lhe a mão esquerda e conduzia-a para um poço que havia perto dali.

Era um poço largo e profundo. Em vez de água, dele jorravam chamas tais que uniam a terra e o céu. A torrejana viu, do outro lado do poço, um rolo de fumo negro e pestilento. Ao mesmo tempo ouviu clamores de aflição e urros medonhos que vinham a subir do fundo daquele poço. Temente dos castigos por seus pecados, a mulher encomendou-se ao seu santo protector que na manhã seguinte tinha festa e missa solene na igreja de Elbrom.

E, diante dela começaram a desfilar, num infindável cortejo de danados, homens de todos os ofícios e idades. Estampadas neles havia marcas dos vis pecados. E eram atentados e espicaçados por demónios pequenos e terríveis que os rodeavam como cães danados. Os mercadores vigaristas passavam carregados de sacos de dinheiro em brasa. Os banqueiros e agiotas, logo a seguir, eram flagelados com grossas cordas de dinheiro a arder. Os ladrões e os assassinos, os adúlteros e os pejuros, e todos os demais homens pecadores desfilaram em frente da estarrecida mulher. A cada um, ela viu com seus olhos bem vivos, os demónios aplicarem castigos apropriados aos seus enganos e pecados.

Buscando força na sua devoção a Santo António, a mulher dirigiu a palavra ao jovem radioso que a acompanhava: - Diz-me, filho de Deus, que lugar é este? Sorrindo, paciente, o moço explicou: - Aqui, toda a alma pecadora deve eternamente padecer, pois o Inferno tu estás a ver!

Maior, então foi o espanto da mulher. Vozes chamavam homens que ela sabia estarem ainda vivos. Eram gente folgada da corte e da cidade. E sendo vivos, as suas almas já andavam na condenação infernal. Coisa tanto de pasmar! Mergulhada neste pasmo, dele foi puxada pela mão direita do mancebo que, de súbito, a fez subir a um lugar deleitoso. No ar um perfume de rosas. Em redor, o verde e a frescura de um ridente pomar de belos e apetitosos frutos. No meio do bosque, uma branca tenda. No centro da tenda, um alvo leito de seda muito brilhante e formosura nunca antes imaginada. Em redor do leito, homens de resplandecente, beleza executavam uma dança suave.

Trajavam de cortesãos e todos estavam coroados de oiro e pedras preciosas. Bailavam aos pares, ao som de uma melodia celestial. De entre eles destacava-se um que parecia um esposo à espera da sua amada. E, ao fundo, a mulher avistava as ameias do castelo de Torres Novas.

Vencendo os seus receios de tentações demoníacas, a mulher inquiriu do seu acompanhante o nome daquele luger. Solícito, o anjo, pois de um anjo se tratava, garantiu-lhe que ela tinha sido eleita pelo seu Santo António para contemplar, naquele dia, o lugar da salvação e da glória. E que visse e se deleitasse pois aquele postumeiro que parecia aguardá-la era mesmo o douto franciscano morto em Pádua. Nesta visão, tinha a mulher a recompensa da sua devoçao e da sua persistência no cumprimento da tradição.

Entretanto, como a mulher não regressou a casa, os familiares e os vizinhos puseram-se a procurá-la. Acharam-na branca e fria, estendida no chão, perto do cemitério. Logo a julgaram morta pela tempestade e Ihe abriram uma sepultura. Mas, quando iam para a enterrar, pôs-se a mulher em pé e começou a contar tudo quanto vira nas suas milagrosas visões. O Padre escutou-a e mandou que fosse à capela de Elbrom e ali tudo foi escrito num pergaminho da igreja.

Esta lenda, passou de pais para filhos. O povo sempre manteve a crença em Santo António que naquela Vila de Torres Novas, que hoje é uma próspera cidade, teve um Convento de frades arrábicos, mandado construir no lugar de Liteiros pelo primeiro duque de Aveiro, em 1562 . Por ser muito húmido e ficar longe do centro da vila, o fidalgo Antão Mogo de Mello e sua esposa, a cultíssima Sigéia de Velasco, (dama da corte da Infanta D. Maria), fizeram doação aos frades de uma terra no lugar de Berlé. Ali foi construído o novo Convento e a igreja de Santo António, com grande regozijo do povo. Extintas as ordens religiosas, em 1834, perdurou ainda a devoção e o topónimo, pois àquele lugar se começou, desde então, a chamar de Santo António.

In "Suplemento Cultural de O Mirante" de 18/6/97

  Vila Nova da Barquinha

A Lenda do Castelo de Almourol

Durante a Idade Média, o Castelo de Almourol suscitou a criação de numerosas lendas, às quais não foram decerto alheias a beleza natural do lugar e a harmonia da construção. Uma delas é a de D. Ramiro, alcaide do Castelo de Almourol.

Conta a lenda que, voltando cheio de sede de uma campanha guerreira, encontrou duas formosas mouras, mãe e filha, que traziam com elas uma bilha de água. D. Ramiro pediu à filha que lhe desse de beber. Esta, assustou-se e deixou cair a bilha. Enraivecido, D. Ramiro matou-as.

Nesse momento apareceu um rapazinho de 11 anos, filho e irmão das assassinadas. O cavaleiro logo ali o fez cativo e trouxe-o para o castelo. Quando chegou, o pequeno mouro jurou que se vingaria na mulhar e na filha de D. Ramiro, duas damas muito belas.

Tempos depois, a mulher do castelão definhou e acabou por morrer, vítima de venenos que o mouro lhe foi dando a pouco e pouco. Porém, não conseguiu matar Beatriz, a filha de D. Ramiro, porque os dois se apaixonaram.

Um belo dia, D. Ramiro chegou ao Castelo na companhia de outro alcaide, a quem tinha prometido a mão de sua filha. Os jovens apaixonados, inconformados com a sorte que os esperava, fugiram sem deixar rasto.

D. Ramiro morreu pouco depois, vitimado pelo desgosto. O castelo, abandonado, caíu em ruínas.

Dizem que, nas noites de S. João, D. Beatriz e o mouro aparecem, abraçados, na torre grande do castelo. A seus pés, D. Ramiro implora perdão, mas o mouro inflexível responde-lhe com dureza:
- MALDIÇÃO!

Adapatação de:
Os Mais Belos Castelos de Portugal, ed. Verbo, Lisboa, 1992, pág. 189

     
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