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O Cingeleiro Riachense Os cingeleiros eram os
agricultores de Riachos que, com a ajuda dos seus bois de
trabalho, amanhavam as terras. Tinham características
muito próprias que se foram consolidando ao longo de
décadas por tal forma que bem podemos dizer se tornaram
uma imagem bem específica que caracteriza o homem
riachense de hoje.
No nosso
entender para que se possa bem compreender este fenónemo
há que levar em consideração alguns aspectos
particulares de que ressaltam:
A estrutura
fundiária da propriedade - o agricultor riacnhense
propriamente dito era, normalmente, proprietário de
algumas ( não muitas ) geiras de terra, que lhe
permitiam desenvolver a sua economia pessoal não só
como proprietário, mas também alugando a sua força de
trabalho (a sua própria, dos seus bois e das suas
alfaias) aos donos das grandes quintas que circundavam
Riachos ou que detinham hastins nos Campos da Golegã. O
cingeleiro riachense era assim um factor imprescindível
na economia agrícola da região o que, acrescido do
especial rigor que punha no seu trabalho, o transformava
num trabalhador respeitado e mais considerado que os seus
companheiros de localidades vizinhas.
Depois, porque
o cingeleiro, como acima já referimos, constituía como
que uma unidade incindível com a sua junta de bois e com
as suas alfaias. Aos primeiros tratava-os como se
fizessem parte da sua própria pessoa - dava-lhes um
nome, ageitava-os a seu modo, cuidava-lhes da higiene e
da saúde como se de um verdadeiro tesouro se tratasse.
As alfaias essas eram também preparadas a rigor não só
para os trabalhos do campo como até para o próprio
carrego nos carros em que uma falha ou um descuido eram
motivo de vergonha e desconsideração perante os outros
colegas de trabalho.
A personalidade
do cingeleiro assim caldeada era caracterizada pela
altivez, pelo respeito pela palavra dada, pela
adaptação permanente às novas exigências e às novas
culturas (do que a introdução da nova cultura do
canhamo na década de 50 foi um exemplo indiscutível). O
cingeleiro era homem de poucas falas, de semblente
austero e duro, pouco permeável a falsidades ou a
desleadades. Mas também de grande solidariedade entre si
- a Sociedade dos Cingeleiros que durante décadas serviu
de mútua de criadores de gados à semalhança do que
aconteceu um pouco por toda a Europa é disso um exemplo
ainda presente na memória de todos nós. Hoje, perante
uma técnica que transformou todos os ritmos naturais da
vida e do trabalho, chegou para eles a hora das memórias
e dos museus. Mas é também a hora
de enfaticamente dizermos: só os que não tenham o
sentido da vida e dos seus valores eternos essenciais é
que ficarão insensíveis à beleza e à nobreza destes
modos de vida e de trabalho tão peculiares desta parte
do ribatejo.
Informação
gentilmente cedida pelo Museu Agrícola de Riachos.

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A
medição das terras, especialmente nos campos da
Requeixada, Rocios Longos, Paúl e Cordas, onde os
cingeleiros e agricultores tinham as suas propriedades,
aforadas ou de renda, era feita praticamente ao fio da
navalha, tal o seu valor e riqueza.
As medidas
dos "Hastins" que variavam de local para
local,eram tomadas com as varas de castanho dos
cingeleiros e boeiros,ou com canas da India previamente
marcadas com pequenos cortes de navalha.
A medida
padrão estava assinalada na parede de suporte do Pontão
do Caminho de Ferro à entrada das Cordas, limite de
Riachos.
As terras
eram medidas e balizadas com canas secas com a altura
aproximada de metro e meio, assinaladas em cima com um
papel branco que as tornava mais visíveis.
Depois a
extrema era riscada a pé - trabalho dificil e muito
cansativo dada a extensão a percorrer - seguindo-se em
certos casos a sua abertura com uma junta de bois puxando
o charrueco e voltando a leiva para dentro.
Eram
também usados,como auxiliares o esquadro em madeira e as
correntes denominadas "cadeias de
agrimensor",em especial nas pro-priedades de maior
extensão.
Os marcos
delimatativos eram em pedra calcarea trabalhada.
Informação
gentilmente cedida pelo Museu Agrícola de Riachos.

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"Campinos
são os homens que lidam e conduzem o gado bravo,
normalmente chamados moirais, abegãos, guardadores de
propriedades e outros ganhões.
O patrão é que lhes fornecia o equipamento, que só
vestiam em dia de festa. Em dias normais usavam barrete e
cinta preta, calça, colete e jaleca, que era de cotim,
embora alguns usassem ganga. Calçavam botas ensebadas.
Há quanto tempo eu não vejo um campino, um desses
homens, que todos os dias vinham à Vila /Coruche/ com a
sua montada, e se dirigiam ao pátio do seu patrão, ou
ao ferrador, mestre Zé Martinó, ao mestre Eurico, ou ao
mestre Zé Albardeiro, ou ainda ao correeiro, mestre
Florêncio! O carinho com que esta gente se tratava!...
- Olhe lá, ó Mestre!
- Diga lá, ó moiral!
- O patrão mandou dizer pó mestre arranjar cá isto, e
cando é que momecê tem isto pronto.
- Tal dia, - dizia o mestre.
Eu era garoto e assistia a muitos diálogos deste tipo,
sentindo-me envolvido neles.
Conheci alguns lavradores que conversavam com os criados
empregando palavras da sua linguagem e eu sabia que isso
servia para que eles se sentissem à vontade na sua
presença, e também porque se habituavam a essa maneira
de falar.
Os campinos, quando guardadores de gado, tinham também
uma vida muito difícil. Se a manada era grande, havia o
moiral, o contramaioral, o roupeiro e o moço. As noites
eram passadas junto do gado. O pessoal dividia-se assim:
o moiral e roupeiro, se ficassem até à meia noite de
vigia, o contramoiral e o moço ficavam o resto da noite,
enquanto os primeiros iam dormir. Se a manad andava perto
de casa, eles ficavam lá, se andava longe, então
dormiam debaixo de uma árvore, embrulhados numa
manta.(...)
Houve campinos que se destacaram na condução de toiros,
até para terras distantes, onde esse gado ia ser
corrido. Tinham de o fazer de noite, e sempre que
possível pela charneca, se não, pela estrada. É
verdade que o trânsito nesse tempo, e de noite, não os
incomodava.
Ia sempre um campino à frente, para avisar alguém que
aparecesse pelo caminho, e sempre gritando:
-É boi - Cá boi - É gente - É homem esconda-se.
E às vezes lá havia um toiro ou um cabresto que se
assustava com qualquer coisa e desatava a correr. Os
outros seguiam-no, o que obrigava o homem da frente a
multiplicar os cuidados, sempre gritando e procurando
acalmar os animais.
Na verdade, os toiros juntos com os bois cabrestos eram
mais fáceis de dominar.
Nas picarias é que os campinos se destacavam com a sua
coragem no saber manejar o cavalo e a vara.
Entre alguns aqui da borda d'água conheceram-se: Joaquim
Silvestre, Francisco Pereira, Manuel Pereira (Manuel do
Peso), etc."
(...)
O meu
amor é Campino
É valente até mais não!
Traz a cabeça do toiro
Na fivela do calção...
Já
lá vem o meu amor,
Já lá vem a campinagem!
Vem à cabeça dos toiros
É um rapaz de coragem.
Sapato
preto engraxado,
Com meia branca bordada,
O meu amor é campino
Leva os toiros para a toirada!
À tua
porta, menina
Está um junqueiro mular,
Onde eu prendo o meu cavalo
Cando te vou namorar.
in
José Luiz Pereira. "Aqui está Coruche".
Rio Maior: 1983.

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Em 1988, os alunos da Escola
Preparatória do Cartaxo fizeram um trabalho sobre os
Avieiros da aldeia da Palhota, que fica no Concelho do Cartaxo. Deslocaram-se
diversas vezes à aldeia e, durante essas Visitas de
Estudo, entrevistaram alguns dos seus habitantes, tendo
recolhido numerosas informações sobre a origem dos
Avieiros, o seu modo de vida no passado e sobre as causas
do seu progressivo desaparecimento. O texto que aqui
incluímos é uma compilação temática de alguns
extractos dessas entrevistas, realizada pelos alunos.
O PASSADO
O Inverno
é rigoroso
Mas na Palhota é amável
Porque é quando cá temos
A pesca do belo sável.
Era
uma vez um rio que atraíu os pescadores.
Havia
sável, saboga, fataça, enguia, barbo, robalo, robalete,
bogas... muitas qualidades de peixe. O sável apanhava-se
aqui aos milhares... Era talvez a região do país onde
se apanhava mais.
Os meus pais eram da Vieira de Leiria. De Inverno não se
podia pescar na Vieira, porque o mar é sempre muito
bravo. Por isso, vinham aqui fazer a época do Inverno:
era a época da pesca do sável, da saboga...
Tinham cá os seus barquitos e era costume virem cá
todos os anos.
Nasceu
a aldeia da Palhota onde viviam os Avieiros.
Faziam
as suas áreas de pesca, estavam aqui meses ou anos.
Habituaram-se a cá estar e muitos deles deixaram de ir
à Vieira de Leiria.
Armavam uns toldos para morar, mais tarde construíram
umas barraquitas e começaram a constituir família.
Ficaram filhos, ficaram netos, iam morrendo uns, ficando
outros e, assim, aumentou isto aqui. Eram esses os
Avieiros.
Já aqui estou há mais de 40 anos. Tinha 6 anos quando
vim para cá. Aqui casei, aqui criei os meus filhos.
Não sei quantos anos tinha esta aldeia quando eu
nasci... já existia! Chamava-se Palhota.
A
pesca era a sua profissão e o rio a sua única riqueza.
Pescava
o homem, a mulher e os filhos. A gente aqui era uma
"companha", era a família toda. Pescava-se de
noite. Eu andava a remar e o meu marido a largar a rede.
De dia ia vender o peixe.
O peixe vendia-se na praça de Valada, no Cartaxo, em
Salvaterra. No tempo do sável vinham aqui uns almocreves
que compravam o peixe aos pescadores e depois
despachavam-no para Lisboa e para o Norte. Isso dava-nos
arranjo...
O sável rendia mais do que a fataça porque era um peixe
muito melhor.
Os pescadores só viviam do Tejo...
Mas
quando o Tejo enchia, muitas aflições lhes causava.
As
casas foram construídas assim /sobre estacas/ por causa
das cheias. Quando a cheia ia às nossas casas, não nos
tirávamos de lá. Íamos de barco buscar o comer.
Há 10 anos, alteou 1 ou 2 metros lá dentro. Pegámos
nas coisas e fugimos de barco.
As cheias provocam muitos estragos. A de há 10 anos
deitou casas abaixo. Houve muita perda... animais, tantos
animais que se viam nas vinhas por aí, mortos! Porcos
gordos, bois... morreu muita, muita coisa!
A gente esteve aqui, pela cheia grande, quase com a morte
pelo pescoço, ninguém cá veio. Com poucas coisas
fiquei... não me deram nada.
Já tinha vindo outra cheia grande, há muito ano. Ainda
não houve nenhuma como aquela! Nesse ano, entrou-me a
cheia 7 vezes em casa e eu lá dentro. Isto foi há mais
de 40 anos...
Nem
sempre o pão lhes chegava, nem sempre a vida lhes
sorria.
Às
vezes queria um bocado de pão e não tinha peixe para
vender...
E os meus filhos? Queria uma casinha e não tinha posses!
criei-os a todos num barco que tomava água, com muitas
lágrimas e amarguras.
O meu filho mais novo nasceu-me dentro de uma bateira em
Vila Franca. Tive um filho que nasceu no "Mouchão
dos Caracóis", no meio da água.
Os meus filhos foram à escola. Um andou 7 anos na 1ª
Classe... não aprendia!
Mas os filhos dos pescadores iam pouco à escola. A
escola era para quem tinha poderes. Eu não fui... a
pobreza era tanta! Tinhamos que ir trabalhar.
O meu marido lançava as redes e eu remava. De manhã ia
vender o peixe, arrumava a casa e às vezes ajudava a
remendar as redes. A gente faz de conta que éramos um
homem à ilharga deles...
A nossa vida era assim: só o barco, só o trabalho...
Mas
festa, era festa! Era dia de alegria.
As
festas aqui eram nos dias feriados: na Páscoa, no Natal,
no Ano Novo, pelo Entrudo. Também havia festa nos
casamentos e baptizados. Os baptizados duravam um dia e
os casamentos duravam três.
Tocava-se concertina e acordeão. Comia-se e brincava-se.
Faziam-se uns jogos: o pica-pau, a abelharda, a malha...
Nas festas não se comia peixe, comia-se carne. Fartos de
peixe andávamos nós! Faziam-se guisados de galinha, de
carneiro... aquilo que não se comia nos outros dias!
Convidava-se a família e os vizinhos. A festa era de
todos!
O
PRESENTE
Dantes
havia o sável...
Mas o sável acabou...
Deixou de existir...
Era
uma vez um rio que o homem agrediu.
O
sável começou a desaparecer aí em 1954... Desapareceu
por causa das barragens: ia desovar a Espanha mas
encontrava uma parede e não podia seguir. Ganhou rumo
para outros rios...
Já não há fataça porque o destino encarrega-se de
tudo e também por causa das fábricas.
As fábricas lançam águas ruins ao Tejo: o peixe
estranha e já não vem. Antes de largarem essas águas
envenenadas para o Tejo, havia o sável... peixe com
muita fartura!
Perdeu
o pescador a sua riqueza, ganhou a terra um lavrador.
Para
os pescadores foi custoso passar da pesca para a
agricultura, porque cada qual é para o que nasce: os
pescadores nasceram para a pesca e, como não percebiam
de agricultura, estavam custosos a acostumarem-se. Mas
agora têm que se obrigar, porque a pesca já não dá.
Alguns arrendam bocados de terra: uns fazem melões,
outros fazem tomates. Outros vão trabalhar por conta de
outros seareiros.
Actuais
habitantes da aldeia da Palhota
| Casais |
Idade |
Naturalidade |
Actividade
Actual |
Matilde
José |
66
66 |
Palhota
Benfica do Ribatejo |
Pesca,
venda do peixe, agricultura
Agricultura |
Clara
António |
65
68 |
Palhota
Valada |
Pesca,
venda de peixe
Pesca |
Maria
Carlos |
62
82 |
Salvaterra
de Magos
Benfica do Ribatejo |
Não
trabalha
Não trabalha |
Celeste
António |
61
61 |
Palhota
Palhota |
Agricultura
Reformado (transp. de areias) |
Deolinda
Manuel |
60
60 |
Azambuja
Beira ("caramelo") |
Não
trabalha
Agricultura |
Filhos dos habitantes da
aldeia da Palhota
Nº
de
Filhos |
Residentes
na Palhota |
Outros
locais
de residência |
Actividades
que exercem |
| 5 |
Nenhum |
3
no Luxemburgo
1 no Forte da Casa
1 na Azambuja |
Desconhecidas
Agricultor
Emp. de Comércio |
| 3 |
Nenhum |
Azambuja |
Agricultor
Operário Fabril
Transp. de areia |
| 5 |
1 |
1
em Vila Franca
2 no Reguengo
1 em Vale da Pedra |
Agricultores |
| 1 |
Nenhum |
Vale
da Pedra |
Agricultor |
| 3 |
Nenhum |
1
em Vale da Pedra
1 no Reguengo
1 em local desconhecido |
Agricultores |
Trabalho realizado pelos
alunos do 2ºG da Escola Preparatória do Cartaxo, ano
lectivo de 1987/88 e coordenado pelos seus professores.

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O Baile em Coruche
(décadas de 20-30)
No Inverno
faziam-se bailes em casas particulares: por exemplo, um
casal que tivesse uma filha ou mais já namoradeiras,
resolvia fazer um baile em casa, para dar oportunidade
aos rapazes de se aproximarem. Então convidavam algumas
raparigas que se faziam acompanhar dos seus pais. Os
rapazes, esses nunca faltavam, vinham até de zonas
distantes.
Na própria casa onde era o baile, o dono da casa vendia
uns copos de aguardente e café pela noite adiante, e
até cá para fora da porta, pois havia alguns rapazes
que não conseguiam entrar por já não caberem, mas
aguentavem-se até o baile acabar, só porque estava lá
dentro alguém que eles pretendiam.
"O tocador" tocava harmónio ou gaita de
beiços, pois naquele tempo, qualquer rapaz tocava gaita
de beiços lindamente e assobiava.
A gaita de beiços era mesmo uma companhia. Quando
passavam de noite por uma azinhaga, que era um
"caminho" apertado com arbustos de um lado e de
outro, e havia ali casas perto, os moradores conheciam o
rapaz só pela maneira como ele tocava, assobiava, ou
cantava. Isto era para espantar o medo.
Às vezes, nos bailes, também era habitual as raparigas
cantarem, para o tocador descansar e até beber um café
ou fumar um cigarro.
Contam que num desses bailes um indivíduo, ao brindar um
copo aos amigos presentes, teve esta frase:
Um
copinho, dois copinhos
Três copinhos d'aguardente,
As meninas caqui estão
Fazem aquecer a gente...
O dono
da casa, que não gostou da brincadeira, respondeu:
Um
copinho, dois copinhos
Três copinhos de licor,
Levas já ca cachaporra,
Passa-te logo o calor!...
in
José Luiz Pereira. "Aqui está Coruche".
Rio Maior: 1983.

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As pessoas do campo tinham uma maneira de comer muito
curiosa.
Quando se sentavam para comer, não se sentavam em
posição correcta, preferiam comer em mesas baixas e
assentos também muito baixos.
A posição era sempre inclinada para a frente, com os
cotovelos assentes nos joelhos e afastados da mesa à
distância a que a mão chegasse.
Na mesa estava uma tigela grande saladeira
onde era deitada a comida para a família e daí é que
iam comendo, cada um com a sua colher. O conduto era
servido a cada um dos filhos em cima do bocado de pão
que iriam comer, e para isso usavam uma navalha, que até
servia de garfo.
Qualquer pessoa do campo tinha uma navalha, que era
utensílio indispensável e que servia para tudo. As
mulheres usavam-na no talêgo (1) do farnel.
No trabalho, chegavam a espetar a enxada no chão,
ficando com o cabo horizontal, para se poderem sentar a
comer. As mulheres, sentavam-se no chão com as pernas
estendidas, depois da refeição, quando era de duas
horas, enquanto os homens passavam pelo sono protegidos
pelos chapéus de sol, que eram grandes.
As mulheres entretinhamse a bordar, a ponto cruz ou
ponto de marca, peças para o enxoval, e
faziam lindas rendas, sempre cantando.
(1) Saco de pano
in José Luiz Pereira. Aqui está Coruche.
Rio Maior: 1983.

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Esse dia
era assinalado sempre com manifestações de grande
alegria dos jovens, que o festejavam de diversas
maneiras, desde bebidas a bailes. Houve uma época em que
os rapazes, após saberem o resultado da inspecção, no
caso de ficarem apurados, já ninguém os segurava. A
primeira coisa que faziam era comprar uma fita de seda
vermelha, que era sinal de estar apurado para militar, e
os que ficavam de espera para o ano seguinte, por
qualquer motivo, na inspecção, compravam uma fita
verde. Os que ficavam livres compravam uma fita branca,
sinal de paz. As fitas eram exibidas na lapela do casaco,
algumas bem grandes, para darem nas vistas. Mas isso não
impedia que todos se juntassem para festejar o
acontecimento. Por essas ruas abaixo ou acima, cantando
ao ritmo do tocador de harmónio ou de gaita de beiços,
que também servia para o efeito, e foguetes, tudo isso
fazia parte da festa.
Mas quando chegava o dia da abalada para a tropa é que
era pior. Havia rapazes que nunca tinham saído debaixo
das saias da mãe, e sentiam profundamente esse
afastamento.
Começava a mãe a organizar os mimozinhos para o rapaz
levar, mas tudo isto com muita tristeza, pois havia pais
que nunca se tinham separado dos filhos, e sofriam
bastante com essa separação.
E, entretanto, chegava o dia, e lá partia o mancebo com
o seu fato melhor, o saco de ramagem vermelha exibindo o
bordado a ponto de cruz com grande monograma do seu nome,
feito pela namorada.
As raparigas do campo, além do saco do farnel, o saco
para o pão, o saco que eles traziam à Vila, (era uso os
homens trazerem um saco de pano branco na mão ou às
costas enfiado no cajado), faziam também luxo no saco de
ramagem que eles levavam para a tropa.
in José
Luiz Pereira. Aqui está Coruche. Rio Maior:
1983.

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As
raparigas do campo, quando vinham à Vila, ao Domingo,
para arranjar trabalho, quase sempre vinham em grupos, o
que se tornava muito bonito, principalmente no Verão,
devido aos trajes serem muito coloridos e as cores
estarem em contraste.
As saias eram sempre de chita azul às bolinhas brancas,
entremeadas com outras bolinhas azuis claras, todas do
mesmo tamanho, o que dava à chita muita beleza; a saia
rematava com uma barra de pano preto encimada por
pespontos a linha branca, ou com ziguezagues a pontos de
linha branca.
Se a blusa casaco com abinhas era
côr-de-rosa, o avental era amarelo ou azul claro; se a
blusa era azul claro, o avental era amarelo ou branco,
bordado a ponto de cruz.
Usavam também a cor de laranja, em contraste até com o
lenço da cabeça, que normalmente era amarelo torrado,
tracejado a encarnado em quadrados e ramagens. Havia
também lenços cor de marfim, enfeitados apreto pouco
intenso, com ramagens simples.
O talêgo que usavam regulava 25X20 centímetros, era
branco, bordado a ponto de cruz, nas cores azul, verde,
vermelho, amarelo e cor de vinho, alguns com rendinhas à
volta, borlas em linha branca ou da cor do bordado. Este
continha monogramas feitos com muita arte.
Quando chegavam à Vila, a primeira coisa que faziam era
ir a uma fonte lavar os pés para lhes tirar o pó que
apanhavam no caminho, pois não vinham calçadas, e assim
apresentavam-se limpas. As roupas eram novas, que as mais
usadas serviam só para o trabalho.
As mulheres do nosso campo eram muito briosas. Um dos
muitos pormenores de que elas se orgulhavam era o laço
do avental, deixando-o muito bem armado e com as pontas
muito certinhas. Estas eram guarnecidas com rendas e
bordadas a ponto de cruz e cada uma delas tentava ter as
roupas com mais bordados do que a outra. (...)
As raparigas que etavam próximo a casar ou
recém-casadas, e as filhas de trabalhadores
privilegiados vinham à Vila com o fato de
passeio, que era vestido inteiro, sem avental, em
cabelo e com meia fina, sapato preto, adornos de ouro,
como se fosse dia de festa. (...)
Depois de passearem um pouco na Praça, o que lhe dava um
colorido muito bonito, e na rua Direita, faziam-se
encontrar com o seu namoro, que era costume estar com
outros amigos, que pretendiam ou já namoravam com
algumas do grupo.
Como era costume, os capatazes, à tarde, encontravam-se
nas tabernas do Zé Mariano, Eugénio, Penteadas e Zé
Ferreira, que eram as que havia nesta área. às portas
destas tabernas, estavam mulheres que vendiam pevides e
tremoços, e as lojas estavam sempre abertas, o que dava
um grande movimento à Vila.
Então elas aproximavam-se da porta da taberna onde
sabiam que o fulano era hábito estar e chamavam-no:
- Á Se Manel!
- Qué lá, raparigas?
- Atão momecê dá trabalho à gente passemana?
Se havia, o capataz respondia:
- Atão cantas são momecês?
É claro que o capataz já conhecia as raparigas que se
lhe dirigiam, mas se havia alguma mais nova que não
fosse conhecida ele aceitava-a também, só porque vinha
no grupo. Os capatazes escolhiam os trabalhadores, mas
contavam sempre com os habituais que apareciam mesmo na
altura em que havia mais trabalho.
Combinado o trabalho, aproximava-se a tarde, depois de
mais um passeio pela Praça e pela rua onde iam comendo
uns tremoços ou pevides, encontravam-se de novo com os
rapazes. Estes já estavam à saída da Vila, por onde as
raparigas haviam de passar, mas já acompanhadas por um
casal que eram os pais de uma delas.
Os rapazes iam-se colocando ao lado das suas pretendidas,
formando assim uma fila de pares, seguindo o casal
atrás, a certa distância. Era desta maneira o namoro a
caminho de casa, ao Domingo. (...)
Os homens, esses passavam o tempo na taberna, falando com
o capataz e bebendo uns copos, outros conversavam na
Praça ou na Rua Direita, aos grupos, encostados aos
cajados. Chegava a ser difícil passar à vontade, por
não haver espaço livre.
Quando começaram a aparecer os automóveis, apareceram
também vários problemas, porque os carros apitavam e os
homens não se desviavam. Então a Guarda Republicana
começou a fazer patrulhas, rua abaixo rua acima, até
que foi proibido o uso de cajado cá na Vila.
A verdade é que os cajados cruzavam-se nas ruas,
chegando a encalhar neles, e quando isso acontecia com um
indivíduo mais zaragateiro gerava-se logo um conflito.
Começaram então a fazer o seguinte: assim que chegavam
à Vila, iam à taberna habitual e pediam para guardar o
cajado. Havia rapazes e até mesmo homens já idosos que
possuíam bons cajados de marmeleiro, muito bem
arranjados, porque faziam luxo neles; então o
taberneiro, para que nenhum indivíduo fosse levantar o
cajado que não lhe pertencesse, levando um melhor,
começou a arranjar o costume de uma chapas numeradas que
atava uma ao cajado e dava outra ao dono, que tinha que a
apresentar quando fosse levantar o seu cajado. E devido
à sua proibição foram caindo em desuso, embora ainda
hoje se vejam os homens mais idosos agarrados ao seu
cajado.
in José
Luiz Pereira. Aqui está Coruche. Rio Maior:
1983.
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