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Figuras, Usos e Costumes  
    O Cingeleiro Riachense
A medição da terras nos campos do Tejo e do Almonda
O Campino, segundo José Luís Pereira
Os Avieiros.
O Baile em Coruche (décadas de 20-30).
A Maneira de Comer (Coruche, décadas de 20-30)
O Dia da Inspecção ou dia das “Sortes” (Coruche, décadas de 20-30)
Ao Domingo, na Vila (Coruche, décadas de 20-30)
       
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O Cingeleiro Riachense

Os cingeleiros eram os agricultores de Riachos que, com a ajuda dos seus bois de trabalho, amanhavam as terras. Tinham características muito próprias que se foram consolidando ao longo de décadas por tal forma que bem podemos dizer se tornaram uma imagem bem específica que caracteriza o homem riachense de hoje.

No nosso entender para que se possa bem compreender este fenónemo há que levar em consideração alguns aspectos particulares de que ressaltam:

A estrutura fundiária da propriedade - o agricultor riacnhense propriamente dito era, normalmente, proprietário de algumas ( não muitas ) geiras de terra, que lhe permitiam desenvolver a sua economia pessoal não só como proprietário, mas também alugando a sua força de trabalho (a sua própria, dos seus bois e das suas alfaias) aos donos das grandes quintas que circundavam Riachos ou que detinham hastins nos Campos da Golegã. O cingeleiro riachense era assim um factor imprescindível na economia agrícola da região o que, acrescido do especial rigor que punha no seu trabalho, o transformava num trabalhador respeitado e mais considerado que os seus companheiros de localidades vizinhas.

Depois, porque o cingeleiro, como acima já referimos, constituía como que uma unidade incindível com a sua junta de bois e com as suas alfaias. Aos primeiros tratava-os como se fizessem parte da sua própria pessoa - dava-lhes um nome, ageitava-os a seu modo, cuidava-lhes da higiene e da saúde como se de um verdadeiro tesouro se tratasse. As alfaias essas eram também preparadas a rigor não só para os trabalhos do campo como até para o próprio carrego nos carros em que uma falha ou um descuido eram motivo de vergonha e desconsideração perante os outros colegas de trabalho.

A personalidade do cingeleiro assim caldeada era caracterizada pela altivez, pelo respeito pela palavra dada, pela adaptação permanente às novas exigências e às novas culturas (do que a introdução da nova cultura do canhamo na década de 50 foi um exemplo indiscutível). O cingeleiro era homem de poucas falas, de semblente austero e duro, pouco permeável a falsidades ou a desleadades. Mas também de grande solidariedade entre si - a Sociedade dos Cingeleiros que durante décadas serviu de mútua de criadores de gados à semalhança do que aconteceu um pouco por toda a Europa é disso um exemplo ainda presente na memória de todos nós. Hoje, perante uma técnica que transformou todos os ritmos naturais da vida e do trabalho, chegou para eles a hora das memórias e dos museus. Mas é também a hora de enfaticamente dizermos: só os que não tenham o sentido da vida e dos seus valores eternos essenciais é que ficarão insensíveis à beleza e à nobreza destes modos de vida e de trabalho tão peculiares desta parte do ribatejo.

Informação gentilmente cedida pelo Museu Agrícola de Riachos.

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A medição da terras nos campos do Tejo e do Almonda

A medição das terras, especialmente nos campos da Requeixada, Rocios Longos, Paúl e Cordas, onde os cingeleiros e agricultores tinham as suas propriedades, aforadas ou de renda, era feita praticamente ao fio da navalha, tal o seu valor e riqueza.

As medidas dos "Hastins" que variavam de local para local,eram tomadas com as varas de castanho dos cingeleiros e boeiros,ou com canas da India previamente marcadas com pequenos cortes de navalha.

A medida padrão estava assinalada na parede de suporte do Pontão do Caminho de Ferro à entrada das Cordas, limite de Riachos.

As terras eram medidas e balizadas com canas secas com a altura aproximada de metro e meio, assinaladas em cima com um papel branco que as tornava mais visíveis.

Depois a extrema era riscada a pé - trabalho dificil e muito cansativo dada a extensão a percorrer - seguindo-se em certos casos a sua abertura com uma junta de bois puxando o charrueco e voltando a leiva para dentro.

Eram também usados,como auxiliares o esquadro em madeira e as correntes denominadas "cadeias de agrimensor",em especial nas pro-priedades de maior extensão.

Os marcos delimatativos eram em pedra calcarea trabalhada.

Informação gentilmente cedida pelo Museu Agrícola de Riachos.

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O Campino

"Campinos são os homens que lidam e conduzem o gado bravo, normalmente chamados moirais, abegãos, guardadores de propriedades e outros ganhões.
O patrão é que lhes fornecia o equipamento, que só vestiam em dia de festa. Em dias normais usavam barrete e cinta preta, calça, colete e jaleca, que era de cotim, embora alguns usassem ganga. Calçavam botas ensebadas.
Há quanto tempo eu não vejo um campino, um desses homens, que todos os dias vinham à Vila /Coruche/ com a sua montada, e se dirigiam ao pátio do seu patrão, ou ao ferrador, mestre Zé Martinó, ao mestre Eurico, ou ao mestre Zé Albardeiro, ou ainda ao correeiro, mestre Florêncio! O carinho com que esta gente se tratava!...
- Olhe lá, ó Mestre!
- Diga lá, ó moiral!
- O patrão mandou dizer pó mestre arranjar cá isto, e cando é que momecê tem isto pronto.
- Tal dia, - dizia o mestre.
Eu era garoto e assistia a muitos diálogos deste tipo, sentindo-me envolvido neles.
Conheci alguns lavradores que conversavam com os criados empregando palavras da sua linguagem e eu sabia que isso servia para que eles se sentissem à vontade na sua presença, e também porque se habituavam a essa maneira de falar.
Os campinos, quando guardadores de gado, tinham também uma vida muito difícil. Se a manada era grande, havia o moiral, o contramaioral, o roupeiro e o moço. As noites eram passadas junto do gado. O pessoal dividia-se assim: o moiral e roupeiro, se ficassem até à meia noite de vigia, o contramoiral e o moço ficavam o resto da noite, enquanto os primeiros iam dormir. Se a manad andava perto de casa, eles ficavam lá, se andava longe, então dormiam debaixo de uma árvore, embrulhados numa manta.(...)
Houve campinos que se destacaram na condução de toiros, até para terras distantes, onde esse gado ia ser corrido. Tinham de o fazer de noite, e sempre que possível pela charneca, se não, pela estrada. É verdade que o trânsito nesse tempo, e de noite, não os incomodava.
Ia sempre um campino à frente, para avisar alguém que aparecesse pelo caminho, e sempre gritando:
-É boi - Cá boi - É gente - É homem esconda-se.
E às vezes lá havia um toiro ou um cabresto que se assustava com qualquer coisa e desatava a correr. Os outros seguiam-no, o que obrigava o homem da frente a multiplicar os cuidados, sempre gritando e procurando acalmar os animais.
Na verdade, os toiros juntos com os bois cabrestos eram mais fáceis de dominar.
Nas picarias é que os campinos se destacavam com a sua coragem no saber manejar o cavalo e a vara.
Entre alguns aqui da borda d'água conheceram-se: Joaquim Silvestre, Francisco Pereira, Manuel Pereira (Manuel do Peso), etc."
(...)

O meu amor é Campino
É valente até mais não!
Traz a cabeça do toiro
Na fivela do calção...

Já lá vem o meu amor,
Já lá vem a campinagem!
Vem à cabeça dos toiros
É um rapaz de coragem.

Sapato preto engraxado,
Com meia branca bordada,
O meu amor é campino
Leva os toiros para a toirada!

À tua porta, menina
Está um junqueiro mular,
Onde eu prendo o meu cavalo
Cando te vou namorar.

in José Luiz Pereira. "Aqui está Coruche". Rio Maior: 1983.

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Os Avieiros


Em 1988, os alunos da Escola Preparatória do Cartaxo fizeram um trabalho sobre os Avieiros da aldeia da Palhota, que fica no Concelho do
Cartaxo. Deslocaram-se diversas vezes à aldeia e, durante essas Visitas de Estudo, entrevistaram alguns dos seus habitantes, tendo recolhido numerosas informações sobre a origem dos Avieiros, o seu modo de vida no passado e sobre as causas do seu progressivo desaparecimento. O texto que aqui incluímos é uma compilação temática de alguns extractos dessas entrevistas, realizada pelos alunos.

O PASSADO

O Inverno é rigoroso
Mas na Palhota é amável
Porque é quando cá temos
A pesca do belo sável.

Era uma vez um rio que atraíu os pescadores.

Havia sável, saboga, fataça, enguia, barbo, robalo, robalete, bogas... muitas qualidades de peixe. O sável apanhava-se aqui aos milhares... Era talvez a região do país onde se apanhava mais.
Os meus pais eram da Vieira de Leiria. De Inverno não se podia pescar na Vieira, porque o mar é sempre muito bravo. Por isso, vinham aqui fazer a época do Inverno: era a época da pesca do sável, da saboga...
Tinham cá os seus barquitos e era costume virem cá todos os anos.

Nasceu a aldeia da Palhota onde viviam os Avieiros.

Faziam as suas áreas de pesca, estavam aqui meses ou anos. Habituaram-se a cá estar e muitos deles deixaram de ir à Vieira de Leiria.
Armavam uns toldos para morar, mais tarde construíram umas barraquitas e começaram a constituir família. Ficaram filhos, ficaram netos, iam morrendo uns, ficando outros e, assim, aumentou isto aqui. Eram esses os Avieiros.
Já aqui estou há mais de 40 anos. Tinha 6 anos quando vim para cá. Aqui casei, aqui criei os meus filhos.
Não sei quantos anos tinha esta aldeia quando eu nasci... já existia! Chamava-se Palhota.

A pesca era a sua profissão e o rio a sua única riqueza.

Pescava o homem, a mulher e os filhos. A gente aqui era uma "companha", era a família toda. Pescava-se de noite. Eu andava a remar e o meu marido a largar a rede. De dia ia vender o peixe.
O peixe vendia-se na praça de Valada, no Cartaxo, em Salvaterra. No tempo do sável vinham aqui uns almocreves que compravam o peixe aos pescadores e depois despachavam-no para Lisboa e para o Norte. Isso dava-nos arranjo...
O sável rendia mais do que a fataça porque era um peixe muito melhor.
Os pescadores só viviam do Tejo...

Mas quando o Tejo enchia, muitas aflições lhes causava.

As casas foram construídas assim /sobre estacas/ por causa das cheias. Quando a cheia ia às nossas casas, não nos tirávamos de lá. Íamos de barco buscar o comer.
Há 10 anos, alteou 1 ou 2 metros lá dentro. Pegámos nas coisas e fugimos de barco.
As cheias provocam muitos estragos. A de há 10 anos deitou casas abaixo. Houve muita perda... animais, tantos animais que se viam nas vinhas por aí, mortos! Porcos gordos, bois... morreu muita, muita coisa!
A gente esteve aqui, pela cheia grande, quase com a morte pelo pescoço, ninguém cá veio. Com poucas coisas fiquei... não me deram nada.
Já tinha vindo outra cheia grande, há muito ano. Ainda não houve nenhuma como aquela! Nesse ano, entrou-me a cheia 7 vezes em casa e eu lá dentro. Isto foi há mais de 40 anos...

Nem sempre o pão lhes chegava, nem sempre a vida lhes sorria.

Às vezes queria um bocado de pão e não tinha peixe para vender...
E os meus filhos? Queria uma casinha e não tinha posses! criei-os a todos num barco que tomava água, com muitas lágrimas e amarguras.
O meu filho mais novo nasceu-me dentro de uma bateira em Vila Franca. Tive um filho que nasceu no "Mouchão dos Caracóis", no meio da água.
Os meus filhos foram à escola. Um andou 7 anos na 1ª Classe... não aprendia!
Mas os filhos dos pescadores iam pouco à escola. A escola era para quem tinha poderes. Eu não fui... a pobreza era tanta! Tinhamos que ir trabalhar.
O meu marido lançava as redes e eu remava. De manhã ia vender o peixe, arrumava a casa e às vezes ajudava a remendar as redes. A gente faz de conta que éramos um homem à ilharga deles...
A nossa vida era assim: só o barco, só o trabalho...

Mas festa, era festa! Era dia de alegria.

As festas aqui eram nos dias feriados: na Páscoa, no Natal, no Ano Novo, pelo Entrudo. Também havia festa nos casamentos e baptizados. Os baptizados duravam um dia e os casamentos duravam três.
Tocava-se concertina e acordeão. Comia-se e brincava-se. Faziam-se uns jogos: o pica-pau, a abelharda, a malha...
Nas festas não se comia peixe, comia-se carne. Fartos de peixe andávamos nós! Faziam-se guisados de galinha, de carneiro... aquilo que não se comia nos outros dias!
Convidava-se a família e os vizinhos. A festa era de todos!

O PRESENTE

Dantes havia o sável...
Mas o sável acabou...
Deixou de existir...

Era uma vez um rio que o homem agrediu.

O sável começou a desaparecer aí em 1954... Desapareceu por causa das barragens: ia desovar a Espanha mas encontrava uma parede e não podia seguir. Ganhou rumo para outros rios...
Já não há fataça porque o destino encarrega-se de tudo e também por causa das fábricas.
As fábricas lançam águas ruins ao Tejo: o peixe estranha e já não vem. Antes de largarem essas águas envenenadas para o Tejo, havia o sável... peixe com muita fartura!

Perdeu o pescador a sua riqueza, ganhou a terra um lavrador.

Para os pescadores foi custoso passar da pesca para a agricultura, porque cada qual é para o que nasce: os pescadores nasceram para a pesca e, como não percebiam de agricultura, estavam custosos a acostumarem-se. Mas agora têm que se obrigar, porque a pesca já não dá.
Alguns arrendam bocados de terra: uns fazem melões, outros fazem tomates. Outros vão trabalhar por conta de outros seareiros.

Actuais habitantes da aldeia da Palhota

Casais Idade Naturalidade Actividade Actual
Matilde
José
66
66
Palhota
Benfica do Ribatejo
Pesca, venda do peixe, agricultura
Agricultura
Clara
António
65
68
Palhota
Valada
Pesca, venda de peixe
Pesca
Maria
Carlos
62
82
Salvaterra de Magos
Benfica do Ribatejo
Não trabalha
Não trabalha
Celeste
António
61
61
Palhota
Palhota
Agricultura
Reformado (transp. de areias)
Deolinda
Manuel
60
60
Azambuja
Beira ("caramelo")
Não trabalha
Agricultura

Filhos dos habitantes da aldeia da Palhota

Nº de
Filhos
Residentes
na Palhota
Outros locais
de residência
Actividades
que exercem
5 Nenhum 3 no Luxemburgo
1 no Forte da Casa
1 na Azambuja
Desconhecidas
Agricultor
Emp. de Comércio
3 Nenhum Azambuja Agricultor
Operário Fabril
Transp. de areia
5 1 1 em Vila Franca
2 no Reguengo
1 em Vale da Pedra
Agricultores
1 Nenhum Vale da Pedra Agricultor
3 Nenhum 1 em Vale da Pedra
1 no Reguengo
1 em local desconhecido
Agricultores

Trabalho realizado pelos alunos do 2ºG da Escola Preparatória do Cartaxo, ano lectivo de 1987/88 e coordenado pelos seus professores.

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O Baile em Coruche (décadas de 20-30)

No Inverno faziam-se bailes em casas particulares: por exemplo, um casal que tivesse uma filha ou mais já namoradeiras, resolvia fazer um baile em casa, para dar oportunidade aos rapazes de se aproximarem. Então convidavam algumas raparigas que se faziam acompanhar dos seus pais. Os rapazes, esses nunca faltavam, vinham até de zonas distantes.
Na própria casa onde era o baile, o dono da casa vendia uns copos de aguardente e café pela noite adiante, e até cá para fora da porta, pois havia alguns rapazes que não conseguiam entrar por já não caberem, mas aguentavem-se até o baile acabar, só porque estava lá dentro alguém que eles pretendiam.
"O tocador" tocava harmónio ou gaita de beiços, pois naquele tempo, qualquer rapaz tocava gaita de beiços lindamente e assobiava.
A gaita de beiços era mesmo uma companhia. Quando passavam de noite por uma azinhaga, que era um "caminho" apertado com arbustos de um lado e de outro, e havia ali casas perto, os moradores conheciam o rapaz só pela maneira como ele tocava, assobiava, ou cantava. Isto era para espantar o medo.
Às vezes, nos bailes, também era habitual as raparigas cantarem, para o tocador descansar e até beber um café ou fumar um cigarro.
Contam que num desses bailes um indivíduo, ao brindar um copo aos amigos presentes, teve esta frase:

Um copinho, dois copinhos
Três copinhos d'aguardente,
As meninas caqui estão
Fazem aquecer a gente...

O dono da casa, que não gostou da brincadeira, respondeu:

Um copinho, dois copinhos
Três copinhos de licor,
Levas já ca cachaporra,
Passa-te logo o calor!...

in José Luiz Pereira. "Aqui está Coruche". Rio Maior: 1983.

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A Maneira de Comer (Coruche, décadas de 20-30)


As pessoas do campo tinham uma maneira de comer muito curiosa.
Quando se sentavam para comer, não se sentavam em posição correcta, preferiam comer em mesas baixas e assentos também muito baixos.
A posição era sempre inclinada para a frente, com os cotovelos assentes nos joelhos e afastados da mesa à distância a que a mão chegasse.
Na mesa estava uma tigela grande “saladeira” onde era deitada a comida para a família e daí é que iam comendo, cada um com a sua colher. O conduto era servido a cada um dos filhos em cima do bocado de pão que iriam comer, e para isso usavam uma navalha, que até servia de garfo.
Qualquer pessoa do campo tinha uma navalha, que era utensílio indispensável e que servia para tudo. As mulheres usavam-na no talêgo (1) do farnel.
No trabalho, chegavam a espetar a enxada no chão, ficando com o cabo horizontal, para se poderem sentar a comer. As mulheres, sentavam-se no chão com as pernas estendidas, depois da refeição, quando era de duas horas, enquanto os homens passavam pelo sono protegidos pelos chapéus de sol, que eram grandes.
As mulheres entretinhamse a bordar, a ponto cruz ou “ponto de marca”, peças para o enxoval, e faziam lindas rendas, sempre cantando.

(1) Saco de pano

in José Luiz Pereira. “Aqui está Coruche”. Rio Maior: 1983.

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O Dia da Inspecção ou dia das “Sortes” (Coruche, décadas de 20-30)

Esse dia era assinalado sempre com manifestações de grande alegria dos jovens, que o festejavam de diversas maneiras, desde bebidas a bailes. Houve uma época em que os rapazes, após saberem o resultado da inspecção, no caso de ficarem apurados, já ninguém os segurava. A primeira coisa que faziam era comprar uma fita de seda vermelha, que era sinal de estar apurado para militar, e os que ficavam de espera para o ano seguinte, por qualquer motivo, na inspecção, compravam uma fita verde. Os que ficavam livres compravam uma fita branca, sinal de paz. As fitas eram exibidas na lapela do casaco, algumas bem grandes, para darem nas vistas. Mas isso não impedia que todos se juntassem para festejar o acontecimento. Por essas ruas abaixo ou acima, cantando ao ritmo do tocador de harmónio ou de gaita de beiços, que também servia para o efeito, e foguetes, tudo isso fazia parte da festa.
Mas quando chegava o dia da abalada para a tropa é que era pior. Havia rapazes que nunca tinham saído debaixo das saias da mãe, e sentiam profundamente esse afastamento.
Começava a mãe a organizar os mimozinhos para o rapaz levar, mas tudo isto com muita tristeza, pois havia pais que nunca se tinham separado dos filhos, e sofriam bastante com essa separação.
E, entretanto, chegava o dia, e lá partia o mancebo com o seu fato melhor, o saco de ramagem vermelha exibindo o bordado a ponto de cruz com grande monograma do seu nome, feito pela namorada.
As raparigas do campo, além do saco do farnel, o saco para o pão, o saco que eles traziam à Vila, (era uso os homens trazerem um saco de pano branco na mão ou às costas enfiado no cajado), faziam também luxo no saco de ramagem que eles levavam para a tropa.

in José Luiz Pereira. “Aqui está Coruche”. Rio Maior: 1983.

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Ao Domingo, na Vila (Coruche, décadas de 20-30)

As raparigas do campo, quando vinham à Vila, ao Domingo, para arranjar trabalho, quase sempre vinham em grupos, o que se tornava muito bonito, principalmente no Verão, devido aos trajes serem muito coloridos e as cores estarem em contraste.
As saias eram sempre de chita azul às bolinhas brancas, entremeadas com outras bolinhas azuis claras, todas do mesmo tamanho, o que dava à chita muita beleza; a saia rematava com uma barra de pano preto encimada por pespontos a linha branca, ou com ziguezagues a pontos de linha branca.
Se a blusa “casaco com abinhas” era côr-de-rosa, o avental era amarelo ou azul claro; se a blusa era azul claro, o avental era amarelo ou branco, bordado a ponto de cruz.
Usavam também a cor de laranja, em contraste até com o lenço da cabeça, que normalmente era amarelo torrado, tracejado a encarnado em quadrados e ramagens. Havia também lenços cor de marfim, enfeitados apreto pouco intenso, com ramagens simples.
O talêgo que usavam regulava 25X20 centímetros, era branco, bordado a ponto de cruz, nas cores azul, verde, vermelho, amarelo e cor de vinho, alguns com rendinhas à volta, borlas em linha branca ou da cor do bordado. Este continha monogramas feitos com muita arte.
Quando chegavam à Vila, a primeira coisa que faziam era ir a uma fonte lavar os pés para lhes tirar o pó que apanhavam no caminho, pois não vinham calçadas, e assim apresentavam-se limpas. As roupas eram novas, que as mais usadas serviam só para o trabalho.
As mulheres do nosso campo eram muito briosas. Um dos muitos pormenores de que elas se orgulhavam era o laço do avental, deixando-o muito bem armado e com as pontas muito certinhas. Estas eram guarnecidas com rendas e bordadas a ponto de cruz e cada uma delas tentava ter as roupas com mais bordados do que a outra. (...)
As raparigas que etavam próximo a casar ou recém-casadas, e as filhas de trabalhadores privilegiados vinham à Vila com o “fato de passeio”, que era vestido inteiro, sem avental, em cabelo e com meia fina, sapato preto, adornos de ouro, como se fosse dia de festa. (...)
Depois de passearem um pouco na Praça, o que lhe dava um colorido muito bonito, e na rua Direita, faziam-se encontrar com o seu namoro, que era costume estar com outros amigos, que pretendiam ou já namoravam com algumas do grupo.
Como era costume, os capatazes, à tarde, encontravam-se nas tabernas do Zé Mariano, Eugénio, Penteadas e Zé Ferreira, que eram as que havia nesta área. às portas destas tabernas, estavam mulheres que vendiam pevides e tremoços, e as lojas estavam sempre abertas, o que dava um grande movimento à Vila.
Então elas aproximavam-se da porta da taberna onde sabiam que o fulano era hábito estar e chamavam-no:
- Á Se Manel!
- Qué lá, raparigas?
- Atão momecê dá trabalho à gente passemana?
Se havia, o capataz respondia:
- Atão cantas são momecês?
É claro que o capataz já conhecia as raparigas que se lhe dirigiam, mas se havia alguma mais nova que não fosse conhecida ele aceitava-a também, só porque vinha no grupo. Os capatazes escolhiam os trabalhadores, mas contavam sempre com os habituais que apareciam mesmo na altura em que havia mais trabalho.
Combinado o trabalho, aproximava-se a tarde, depois de mais um passeio pela Praça e pela rua onde iam comendo uns tremoços ou pevides, encontravam-se de novo com os rapazes. Estes já estavam à saída da Vila, por onde as raparigas haviam de passar, mas já acompanhadas por um casal que eram os pais de uma delas.
Os rapazes iam-se colocando ao lado das suas pretendidas, formando assim uma fila de pares, seguindo o casal atrás, a certa distância. Era desta maneira o namoro a caminho de casa, ao Domingo. (...)
Os homens, esses passavam o tempo na taberna, falando com o capataz e bebendo uns copos, outros conversavam na Praça ou na Rua Direita, aos grupos, encostados aos cajados. Chegava a ser difícil passar à vontade, por não haver espaço livre.
Quando começaram a aparecer os automóveis, apareceram também vários problemas, porque os carros apitavam e os homens não se desviavam. Então a Guarda Republicana começou a fazer patrulhas, rua abaixo rua acima, até que foi proibido o uso de cajado cá na Vila.
A verdade é que os cajados cruzavam-se nas ruas, chegando a encalhar neles, e quando isso acontecia com um indivíduo mais zaragateiro gerava-se logo um conflito.
Começaram então a fazer o seguinte: assim que chegavam à Vila, iam à taberna habitual e pediam para guardar o cajado. Havia rapazes e até mesmo homens já idosos que possuíam bons cajados de marmeleiro, muito bem arranjados, porque faziam luxo neles; então o taberneiro, para que nenhum indivíduo fosse levantar o cajado que não lhe pertencesse, levando um melhor, começou a arranjar o costume de uma chapas numeradas que atava uma ao cajado e dava outra ao dono, que tinha que a apresentar quando fosse levantar o seu cajado. E devido à sua proibição foram caindo em desuso, embora ainda hoje se vejam os homens mais idosos agarrados ao seu cajado.

in José Luiz Pereira. “Aqui está Coruche”. Rio Maior: 1983.

       
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