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"Passados
meses, numa chuvosa e fria noite de inverno, um anjo
entrou em casa de Maria de Nazaré, e foi o mesmo que se
não tivesse entrado ninguém, pois a família assim como
estava assim se deixou ficar, soó Maria deu pela chegada
do visitante, que nem teria podido ela dar-se por
desentendida, uma vez que o anjo lhe dirigiu directamente
a palavra, e foi assim, Deves saber, ó Maria, que o
Senhor pôs a sua semente de mistura com a semente de
José na madrugada em que concebeste pela primeira vez, e
que, por conseguinte e consequência, dela, da do Senhor,
e não da do teu marido, ainda que legítimo, é que foi
engendrado o teu filho Jesus. Ficou Maria muito
assombrada com a notiícia, cuja substância, felizmente,
não se perdeu na elocução confusa do anjo, e
perguntou, Então Jesus é filho de mim e do Senhor,
Mulher, que falta de educação, deves ter cuidado com as
hierarquias, com as precedências, do Senhor e de mim é
que deverias dizer, Do Senhor e de ti, Não, do Senhor e
de ti, Não me baralhes a cabeça, responde-me ao que te
perguntei, se Jesus é filho, Filho, o que se chama
filho, é só do Senhor, tu, para o caso, não passaste
de ser uma mãe portadora, Então, o Senhor não me
escolheu, Qual quê, o Senhor ia só a passar, quem
estivesse a olhar tê-lo-ia percebido pela cor do céu,
mas reparou que tu e José eram gente robusta e
saudável, e então, se ainda te lembras de como estas
necessidades se manifestavam, apeteceu-lhe, o resultado
foi, nove meses depois, Jesus, E há a certeza, o que se
chame certeza, de que tenha sido mesmo a semente do
Senhor que engendrou o meu primeiro filho, Bom, a
questão é melindrosa, o que tu estás a pretender de
mim é, sem tirar nem pôr, uma investigação de
paternidade, quando a verdade é que, nestes conúbios
mistos, por muitas análises, por muitos testes, por
muitas contagens de glóbulos que se façam, certezas
nunca as podemos ter absolutas, Pobrezinha de mim, que
cheguei a imaginar, ouvindo-te, que o Senhor me havia
escolhido para ser a sua esposa naquela madrugada, e
afinal foi tudo obra de um acaso, tanto poderá ser que
sim como poderá ser que não, digo-te até que melhor
seria não teres descido aqui na Nazaré para vires
deixar-me nesta dúvida, aliás, se queres que te fale
com franqueza, um filho do Senhor, mesmo tendo-me a mim
como mãe, dávamos por ele logo ao nascer, e quando
crescesse teria, do mesmo Senhor, o porte, a figura e a
palavra, ora, ainda que se diga que o amor de mãe é
cego, o meu filho Jesus não satisfaz as condições
(...)."
Saramago, José. O Evangelho segundo
Jesus Cristo. Ed. Caminho. Lisboa: 1991.
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