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O Marquês de Marialva  
     
   

Última Corrida de Touros em Salvaterra

" O sr. D. José, primeiro do nome, era em Salvaterra um rei em férias.(...)
Uma tourada real chamara a corte a Salvaterra. Os fidalgos respiravam nestas ocasiões menos oprimidos. Não os assombrava tão de perto a privança do ministro. Os touros eram bravos, os cavaleiros destros, o anfiteatro pomposo e o cortejo das damas adorável. O prazer ria na boca de todos. Por cúmulo de venturas o marquês de Pombal ficara em Lisboa, retido pelo conflito com o embaixador de Espanha.(...)
Mas vamos aos touros reais. Desses é que o ministro (Marquês de Pombal) não gostava nada.(...)
Mas el-rei D. José, cedendo em tudo ao marquês, quanto aos touros não admitia reflexões. (...)
Correram-se as cortinas da tribuna real. Rompem as músicas. Chegou el-rei, e logo depois entra pelos camarotes o vistoso cortejo, e vê-se ondear um oceano de cabeças e de plumas. Na praça soam brava alegria as trombetas, as charamelas e os timbales. Aparecem os cavaleiros, fidalgos distintos todos, com o conto das lanças nos estribos e os brasões bordados no veludo das gualdrapas dos cavalos.(...). Os capinhas e forcados vestem com garbo à castelhana antiga. No semblante de todos brilha o ardor e o entusiasmo.
O conde de Arcos, entre os cavaleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado à moda da antiga corte de Luís XV, de veludo preto, fazia realçar a elegância do corpo.(...) Filho do marquês de Marialva e discípulo querido de seu pai, do melhor cavaleiro de Portugal, e talvez da Europa, a cavalo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos.(...)
A bizarria com que percorreu a praça, domando sem esforço o fogoso corcel, arrancou prolongados e repetidos aplausos. Na terceira volta, obrigando o cavalo quase a ajoelhar-se diante de um camarote, fez que uma dama escondesse turvada no lenço as rosas vivíssimas do rosto.(...)
Principiou o combate.
Tinham-se picado alguns bois. Abriu-se de novo a porta do curro, e um touro preto investiu com a praça. Era um verdadeiro boi de circo. Armas compridas e reviradas nas pontas, pernas delgadas e nervosas, indício de grande ligeireza, e movimentos rápidos e bruscos, sinal de força prodigiosa.(...)
Nenhum dos cavaleiros se atreveu a sair contra ele.(...) De repente viu-se o conde dos Arcos firme na sela provocar o ímpeto da fera.(...) Um rugido tremendo, uma aclamação imensa do anfiteatro inteiro, e as vozes triunfais das trombetas e charamelas encerraram esta sorte brilhante. Quando o nobre mancebo passou a galope por baixo do camarote, diante do qual pouco antes fizera ajoelhar o cavalo, a mão alva e breve de uma dama deixou cair uma rosa, e o conde, curvando-se com donaire sobre os arções, apanhou a flor do chão sem afrouxar a carreia, levou-a aos lábios e meteu-a no peito.(...)
O mancebo desprezava o perigo e pago até da morte pelos sorrisos, que seus olhos furtavam de longe, levou o arrojo a arripiar a testa do touro com a ponta da lança. Precipitou-se então o animal com fúria cega e irressistível. O cavalo baqueou trespassado e o cavaleiro, ferido na perna, não pode levantar-se. Voltando-se sobre ele o boi enraivecido arremessou-o aos ares, esperou-lhe a queda nas armas, e não se arredou senão quando, assentando-lhe as patas sobre o peito, conheceu que o seu inimigo era um cadáver.(...)
El-rei D. José, com as mãos no rosto, parecia petrificado.(...)
Mas o drama ainda não tinha concluído.(...)
O marquês de Marialva assistira a tudo do seu lugar.(...)
(...) e o marquês perdido o filho, luz da sua alma e ufania das suas cãs, não proferiu uma palavra, não derramou uma lágrima; mas os joelhos fugiam-lhe trémulos, e a elevada estatura inclinou-se vergando ao peso da mágoa excruciante.
Volveu, porém, em si, decorridos momentos. A lívida palidez do rosto tingiu-se de vermelhidão febril subitamente.(...)
Sem querer ouvir nada, desceu os degraus do anfiteatro, seguro e resoluto como se as neves de setenta anos não lhe branqueassem a cabeça.
- Sua majestade ordena ao marquês de Marialva, que aguarde as suas ordens! - disse um camarista detendo-o pelo braço.
O velho estremeceu como se acordasse sobressaltado (...). Desviando depois a mão que o suspendia, baixou mais dois degraus.
- Sua majestade entende que este dia foi já bastante desgraçado e não quer perder nele dois vassalos... O marquês desobedece às ordens de el-rei?!...
- El-rei manda nos vivos e eu vou morrer! - atalhou o ancião, em voz áspera mas sumida - Aquele é o corpo do meu filho! - e apontava para o cadáver - Está ali! Sua majestade pode tudo menos desarmar o braço do pai, menos desonrar os cabelos brancos do criado que o serve há tantos anos. Deixe-me passar, e diga isto.(...)
O pai angustiado ajoelhou junto do corpo do filho e pensou-lhe depois um ósculo na fronte. Desabrochou-lhe o talim e cingiu-o, levantou-lhe do chão a espada e correu-lhe a vista pelo fio e pela ponta de dois gumes. Passou depois a capa no braço e esbriu-se. Decorridos instantes estava no meio da praça e devorava o touro com a vista chamejante, provocando-o para o combate. (...)
Fez-se no circo um silêncio gélido (...)
O touro arremete contra ele... Uma e muitas vezes o investe cego e irado, mas a destreza do marquês esquiva sempre a pancada.(...)
O combate demora-se.
A vida dos espectadores resume-se nos olhos.
A imensidade da catástrofe imobiliza todos.
De súbito, solta el-rei um grito e recolhe-se para dentro da tribuna. O velho aparava a peito a marrada do touro, e quase todos ajoelharam para rezarem por alma do último marquês de Marialva. (...) A aflitiva pausa apenas durou momentos. Por entre as névoas, de que a pupila trémula se embaciava, viu-se o homem crescer para a fera, a espada fuzilar nos ares e logo após sumir-se até aos copos entre a nuca do animal.(...) Clamores unísonos saudaram a vitória. O marquês, que tinha dobrado o joelho com a força do golpe, levantava-se mais branco do que um cadáver. Sem fazer caso dos que o rodeavam, tornou a abraçar-se com o corpo do filho, banhando-o de lágrimas e cobrindo-o de beijos. (...)
El-rei, de pé e muito pálido, tinha junto de si o marquês de Pombal (...)
- Foi a última corrida, marquês. A morte do conde de Arcos acabou com os touros reais enquanto eu reinar.
- Assim o espero da sabedoria de vossa majestade. Não há tanta gente nos seus reinos, que possa dar-se um homem por um touro...
D. José I cumpriu a palavra dada ao seu ministro. No seu reinado nunca mais se picaram touros reais em Salvaterra.

in Rebelo da Silva, "Contos e Lendas"

       
     

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