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A Torre quatrocentista do Cabaceiro
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Santarém na História  

Do cimo das suas sete colinas, Santarém ostenta 3 000 anos de História.

A urbe conheceu variadas designações: Scallabis, na sua fundação; Presidium Julium com a dominação romana; Sancta Irene (ou Iria) com Receswinto (Ocupação dos Visigodos); Shantarin sob a ocupação muçulmana; e Santarém após a reconquista da cidade pelos portugueses. Manteve porém inalterável a sua notabilidade e importância estratégica, quer durante o período em que foram predominantes na cidade as influências mediterrânicas e orientais (séc. I - XIII), quer no espaço temporal em que predominaram as influências atlânticas (séc. XIV - XIX).

Atestando a importância do aglomerado, o facto de se ter constituído em sede administrativa de uma das províncias da Hispânia romana (o Conventus Escalabitanus); em entreposto económico dos fenícios; numa das cidades mais florescentes do al-Andaluz muçulmano; em local de sepultura da mártir de Nabância, Santa Iria; e numa das principais vilas medievais do Reino de Portugal, altura em que adquiriu o estatuto de "Sempre Nobre e Leal".

No Século XVI, encontram-se ou relacionam-se com Santarém grandes vultos da ciência náutica, das artes e das letras, como Pedro Álvares Cabral (Descobridor do Brasil), Luís de Camões (Poeta Lírico), Fernão Lopes Castanheda (Historiador dos Descobrimentos), e Martim Afonso de Melo (1º Europeu que chegou à China por mar).

Durante o Século XIX, Santarém voltou a estar ligada a alguns dos principais acontecimentos da História do nosso País. Para além de servir de palco das Guerras Penínsulares (quartel-general das III Invasões Francesas lideradas pelo General Massena), e sitiada pelo Duque de Wellington em 1810-11, (acontecimentos dos quais nos ficou uma narrativa de viagens do médico escocês e oficial do exército inglês, John Gordon Smith, extraordinário relato contemporâneo designado "Santarém or sketches of manners and costums in the interior of Portugal"), a urbe foi uma das cidades de primeira linha das lutas liberais. Sá da Bandeira (Estadista e Militar), Passos Manuel (Estadista e Militar), Braamcamp Freire (Político) são exemplos de liberais nascidos e ligados a Santarém.

Refira-se o papel de Santarém na opção democrática do Portugal actual, traduzido no forte apoio ao movimento libertador do 25 de Abril de 1974, liderado pelas tropas do Capitão Salgueiro Maia.

Pela sua projecção histórica, bem se pode dizer, com Almeida Garrett, que Santarém é "um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética das nossas crónicas está escrita". É de resto eivada desta convicção que a cidade de Santarém se encontra presentemente a preparar a Candidatura a Património Mundial.

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Santarém - Morfologia Urbana   O Centro Histórico de Santarém é o maior núcleo antigo de Portugal, ocupando uma área de 1,42 Km2, o que corresponde à quase totalidade do tecido urbano consolidado. Neste perímetro, a cidade consolidou-se justapondo as edificações e os espaços verdes privados às diferentes estruturas urbanas, aos volumes construídos e às frentes de rua.

Esta estrutura ocupa uma situação topográfica bem defenida, com a sua organização urbana instalada segundo uma lógica polinucleada, caracterizada pela articulação funcional entre os pontos altos e baixos e por um assentamento dos vários núcleos nos locais onde a estabilidade geológica oferecia maior segurança. Não obstante, a estrutura urbana agrega um tecido coerente, ao qual corresponde uma unidade histórica, estética e paisagística.

A morfologia urbana de Santarém obedece a uma lógica de desenvolvimento urbano linear e orgânico que testemunha as diferentes ocupações que a cidade conheceu ao longo dos seus três milénios de história.

Do urbanismo romano, ficou o traçado perpendicular das duas artérias principais da cidade, para além da estrutura rectilínea das vias secundárias do Bairro do Pereiro, vestígio provável do cardus e do decumanus.

A influência urbana muçulmana está presente quer no subsolo, quer ainda no traçado sinuoso de algumas ruas e vielas, nos becos ou nos pátios interiores, espaços de "descompressão" urbana onde o público e o privado se relacionam sem fronteiras defenidas.

Os largos e as praças, são por sua vez um legado cristão, assumindo-se como lugares de acontecimento por excelência. Estes locais evocam as realidades vivenciais da cidade medieval e moderna, uma vez que aqui afluíam as pessoas, os bens e as crenças e aqui se efectuavam as reuniões políticas, económicas, sociais ou religiosas, quer locais quer nacionais.

Da mesma altura são as escadas, visíveis um pouco por todo o Centro Histórico e que são reflexos da diferenciação altimétrica da urbe e da necessidade de vencer o desnível do terreno entre os locais de ocupação.

A estrutura urbana de Santarém complementa-se pela variedade e qualidade da linguagem estética das fachadas, a originalidade de varandas, telhados, portas, janelas ou revestimentos cerâmicos ímpares no País.

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Santarém e o Rio   Antes das vias rodo e ferroviárias rasgarem os solos virgens do nosso País eram as vias fluviais (em especial as mais facilmente navegáveis) que se assumiam como veículos de comunicação por excelência, fundindo os dois estilos de vida que, desde sempre, caracterizaram a Nação: o do continente agrícola e o do litoral marítimo.

Nesta perspectiva, é facilmente compreensível a importância que o Tejo manteve para Santarém. A sua vasta extensão e fácil navegabilidade foram primordiais na fundação e desenvolvimento futuro da cidade, uma vez que a urbe se assumiu como o mais importante porto do Tejo médio com os Romanos, os Muçulmanos e os Cristãos. Em especial desde que, no século XVI, Lisboa se tornou capital do Reino e aumentou a sua preponderância económica, que as comunidades ribeirinhas de Santarém não mais deixaram de crescer, em franca comunhão com o Tejo e com os seus vastos recursos.

A ligação ao rio manifestou-se, desde logo, a nível económico e social. De facto a riqueza do Tejo, sempre acentuada pelos autores clássicos, permitiu o desenvolvimento de grupos socio-profisionais a ele ligados (pescadores, cordoeiros, barqueiros, tanoeiros, etc) e motivava o aparecimento de bairros ribeirinhos/portos fluviais. Tejo acima, aos portos fluviais chegava o sal, o peixe e os panos do litoral e deles partiam, rumo à capital, as manufacturas, os minérios, os produtos agrícolas (madeiras, vinhos, cereais, azeite, mel e cera) e mesmo o peixe do rio (sável, azevias, lampreias). O movimento dos barcos era constante.

A relação política, militar e cultural entre Santarém e o Tejo, porém, não era menor.

Nas suas viagens governativas os monarcas e o respectivo séquito elegiam o barco como meio de transporte privilegiado e o rio Tejo como via essencial. Santarém era, até ao séc. XVI, um dos destinos privilegiados das (frequentes) deslocações da Corte, o que vem realçar o papel político desta via fluvial. Além do que, sendo o Tejo o maior rio da Península Ibérica, várias vezes assumiu um papel de primeira nas relações políticas entre Portugal e Espanha, sobretudo durante o período Filipino (1580-1640), altura em que os dois Estados Ibéricos estiveram unidos.

Refira-se que de Santarém seguiam via Tejo, boa parte dos meios materiais e humanos que alimentaram a acção de Descobrimento e Expansão Portuguesa no Mundo. E à cidade chegava um fluxo considerável de mercadores, fidaldos, religiosos, poetas, trovadores, escravos ou aventureiros vindos dos quatro cantos do mundo.

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Os Bairros Ribeirinhos de Santarém   Quem lançar um olhar geral sobre a cidade de Santarém, facilmente se apercebe da existência de dois planos altimétricos distintos: uma zona alta, organizada na área planáltica e uma zona ribeirinha, bordejada ao longo dos meandros do Tejo. É a relação entre estas duas estruturas urbanísticas que confere o cunho de originalidade a esta cidade do Ribatejo português.

E se a zona alta, provavelmente já no Calcolítico, É o lugar de fixação de comunidades agro-pastoris, adquirindo cedo uma função estratégico-militar (função materializada depois com a constituição do oppidum romano ou da Alcáçova muçulmana), a zona baixa erigir-se-ia como área de interpenetração de povos mediterrânicos, orientais e atlânticos. De vocação piscatória, comercial e industrial por excelência, esta área está estreitamente ligada ao rio e posicionada geograficamente por forma a beneficiar da protecção da cidadela.

Seria nesta área ribeirinha que nasceriam dois núcleos urbanos, cuja fundação parece indissociável da mitologia greco-romana e cristã da cidade de SantarÉm e que outrora se ligavam à parte alta atravÉs de uma complexa rede viária e de um sistema gigantesco de fortificações: o Alfange e a Ribeira.

A tradição historiográfica tem relacionado a origem do bairro de Alfange com a opção de Abidis, descendente mitológico de Ulisses, de aqui fundar Scallabis, uma importante urbe do curso mÉdio do Tejo e base de assentamento da realeza local, em função da semelhança geográfica com Roma (as sete colinas). O certo É que o peso histórico de Alfange parece ter sido considerável antes do sÉc. XIV, se atendermos às três paróquias que aí se implantaram e cuja ancestralidade É hoje comprovada. De um primitivo porto fluvial, Alfange transformar-se-ia numa importante comunidade piscatória, cujos recursos permitiram fundar a Igreja paroquial de São Pedro, "o Novo", ou dos Pescadores. No sÉc. XIV, porÉm, parece ter perdido a sua anterior fulgurância, caíndo numa estagnação irreversível.

Na Ribeira, por seu lado, nascerá o nome de Santarém, em função de aí ter sido sepultada Santa Iria ou Irene (séc. VII-VIII), Virgem do martirológico cristão e cujo étimo serviria para substítuir a antiga designação de Scallabis. Bairro burguês e industrial, cresceu a partir do séc. XIV, quando o aumento do tráfego fluvial e terrestre fez dela uma peça fundamental na economia da cidade e um centro vital nas comunicações do país. Pela Ribeira passava a importante estrada real da Golegã e no seu porto aportavam os barcos que percorriam o Tejo entre Abrantes e Lisboa. O seu desenvolvimento económico e comercial e a sua expansão fluvio-marítima ia a ponto do bairro adquirir, em relação à cidade, uma independência relativa, materializada em centros próprios de poder e numa organização particular.

Esta realidade urbana de hierarquia espacial e altimÉtrica, já definida em pleno séc. XIII, define uma cidade sui generis e onde, qualquer política patrimonial deve ter em conta o seu Genius Loci.

     
     
   

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